A relação do brasileiro com sua nacionalidade: os efeitos do complexo de vira-latas.

Enviada em 25/05/2021

Em 1922, a partir da realização da Semana de Arte Moderna, desenvolvia-se no país o movimento cultural denominado Modernismo, no qual a valorização de aspectos nacionais era marca característica. Todavia, apesar de o Modernismo ter deixado diversos traços na arte brasileira, o nacionalismo não se tornou um sentimento comum à população do país, uma vez que o complexo de suposta inferioridade em relação a outras nações é evidente no pensamento de muitos brasileiros, o chamado ‘‘complexo de vira-lata’’. Nesse contexto, torna-se necessário analisar a historicidade do processo de formação cultural brasileira e a desvalorização da arte nacional como desencadeadores desta problemática.

A princípio, é imperativo debater o processo histórico da cultura brasileira, marcada por intercâmbios e por violações étnicas, para entender a falta de caráter identitário de alguns indivíduos. Neste ínterim, a assimilação de costumes é fortemente presente na História do povo brasileiro, causada, desde o descobrimento do país, pela diversidade cultural entre portugueses e indígenas. como retratado na famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, redigida pelos portugueses descrevendo pejorativamente a população nativa. Outrossim, a imposição dos costumes europeus prejudicou a valorização da cultura indígena, impedindo a transmissão de valores próprios da identidade brasileira. Assim, evidencia-se a relação entre a falta de reconhecimento nacional com a violência cultural contida na consolidação da personalidade brasileira, ao longo da história.

Ademais, a depreciação da arte no Brasil, com brasileiros rebaixando os próprios costumes, simboliza o ‘‘complexo de vira-lata’’ de maneira expressiva. Nesse viés, vale ressaltar os ideais do escritor brasileiro Lima Barreto, ao afirmar que ‘‘O Brasil não tem povo, tem público’’, demonstrando a adoração da população nacional pela cultura alheia e a prática de um etnocentrismo reverso, a saber que os valores e os costumes são inferiorizados pelo próprio povo., ao passo que, de modo contrário, muitos estrangeiros têm admiração à cultura nacional. Desse modo, a difusão dos valores nacionalistas deve ser feita através da arte regional, instruindo os 42% da população que não praticam atividades culturais, como apontado no Panorama Setorial da Cultura Brasileira.

Portanto, cabe às Secretarias Federais de Cultura, em parceria com a mídia televisiva, incentivar o contato da população com a cultura nacional, por meio de campanhas e de documentários, nos quais a significância da arte brasileira seja abordada, a fim de aumentar a representatividade, principalmente entre os jovens. Assim, o sentimento de pertencimento identitário com os costumes do país reduzirá o ‘‘complexo de vira-lata’’, retomando conceitos modernistas previamente estabelecidos em 1922.