A romantização nos contos de fadas: a representação da inferioridade nas mulheres
Enviada em 11/10/2022
Durante a Revolução Francesa, no século XVIII, foi promulgado pelos revolucionários o texto “Declaração dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos”. O código, considerado inovador para o período, trazia em seu título uma realidade: as mulheres não estavam abrangidas pela nova lei. Coube a Olympe de Gourges questionar o título e lançar o seu próprio documento, “Declaração dos Direitos das Mulheres e das Cidadãs”. Quase 300 anos após o evento, a situação feminina em muito evoluiu, porém, resquícios do passado ainda reverberam. Diante desse cenário, faz-se necessário discutir a romantização nos contos de fadas: a representação da inferioridade nas mulheres.
De início, as pequenas representações limitantes com as mulheres são essenciais para a persistência da mazela social. A reiteração de que homens e mulheres têm tarefas pré-definidas condiciona à sociedade a estipular funções para cada sexo. Nos livros infantis, por exemplo, o papel do homem sempre é resgatar a mulher indefesa de algum mal. Sob essa ótica, a filósofa Judith Butler discorre sobre a perfomatividade de gênero, relatando ser a sociedade que cria essa divisão de cargos e não algo biológico. Desse modo, meras histórias infantis, que parecem algo banais, constroem um problema social muito maior.
Ademais, a romantização da mulher como sexo frágil tem reflexos nefastos no corpo social. Segundo o IBGE, o gênero feminino recebe até 20% a menos de salários, para exercer o mesmo emprego, que sujeitos do gênero masculino. Nesse sentido, o uso de histórias infantis, mostrando a inferioridade feminina, validam que estas recebam menos por não terem a mesma aptidão que homens.
Depreende-se, portanto, que a romantização nos contos de fadas sobre as mulheres deve ser questionada e dissuadida. À vista disso, cabe à Secretária da Cultura — órgão com a função de promover a cidadania através cultura — atuar para dar nova significação às histórias infantis. Isso poder ser feito por meio da criação de concurso literário, com escritoras mulheres, para desenvolver novas contos infantis. Estas novas histórias serão disponibilizados nas escolas brasileiras, com o objetivo de desconstruir esse imaginário da inferioridade feminina. Assim, o Brasil poderá contar com mais Olympes de Gourges e menos Brancas de Neve.