A romantização nos contos de fadas: a representação da inferioridade nas mulheres

Enviada em 17/10/2022

Segundo Simone de Beauvoir, a concepção de gênero é uma construção social, determinada por papeis estabelecidos por terceiros. Baseando-se na premissa de que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, a francesa mostra como influências externas moldam a figura feminina. Infere-se, sob essa ótica, que a romantização nos contos de fada acarreta a representação da inferioridade nas mulheres, o que desencadeia inúmeros problemas: a invisibilidade feminina e a permanência de uma sociedade machista, por exemplo.

A priori, vale ressaltar a relevância do tema. Em 2020, a Disney inovou ao lançar “Mulan”, filme no qual uma garota se disfarça de homem para combater invasores, provando, no final, ser uma grande guerreira. Distante da ficção, no entanto, o cenário diverge daquele encontrado nas telas dos cinemas. Permeada por décadas de produções conservadoras, a sociedade encontra-se em uma posição favorável à inferiorização das mulheres, visto que as meninas, mesmo nos primeiros anos, são bombardeadas por histórias em que princesas, além de terem a felicidade condicionada aos príncipes, são silenciadas e representadas como submissas.

Além disso, a perpetuação de contos de fada que disseminam essa visão arcaica corrobora outra mazela social, a contribuição, ainda que indireta, com o machismo. Os estereótipos de gênero reforçam comportamentos nocivos, pois levam os indivíduos ao discurso pautado no determinismo biológico. Conforme a psicóloga estadunidense Christia Brown, a atribuição de funções ligadas ao sexo sustenta-se em ideias predeterminadas na infância, uma vez que meninos são estimulados por heróis, descritos como fortes e nobres, e as garotas por personagens frágeis. Conclui-se, dessa forma, que tal representação culmina em condutas negativas, como a masculinidade tóxica.

Portanto, medidas são necessárias para combater o impasse. Com o intuito de atenuar os efeitos negativos da romantização dos contos de fada sobre a sociedade, é dever da mídia, por meio da reformulação de histórias existentes, promover a desmitificação do conceito “sexo frágil”. Ademais, novas histórias devem surgir, visando propiciar a igualdade proposta por Beauvoir. Só assim a humanidade, enfim, evoluirá.