A supervalorização dos laços sanguíneos leva a sociedade a ignorar problemas familiares?

Enviada em 25/05/2022

O livro “Enquanto eu não te encontro”, do autor brasileiro Pedro Rhuas, reforça a concepção do núcleo familiar mutável, determinado a partir de relações sociais estabelecidas ao longo da vida. Entretanto, fora da ficção, percebe-se uma realidade distante do proposto pela obra, pois a supervalorização dos laços sanguíneos, em detrimento do bem-estar autêntico dos indivíduos familiarizados, é algo relevante na cultura brasileira. Assim, é válido discutir as consequências desse imbróglio.

No tocante aos desdobramentos da valorização demasiada da consanguinidade no corpo social, destaca-se uma “alienação” da pessoa inserida em relacionamento familiar tóxico. Isto ocorre porque o “habitus” brasileiro - conceito estabelecido pelo sociólogo Pierre Bourdieu, segundo o qual o “habitus” é um lugar de valores socialmente compartilhados - estabelece a importância primordial da família. Assim, aspectos como a prejudicidade dos laços são relegados a um segundo plano. Desse modo, há uma tendência geral dos indivíduos em tolerar comportamentos problemáticos provenientes de familiares, fator a ser considerado na discussão.

Ademais, percebe-se outro efeito desse “habitus”: a negligência no reconhecimento de problemas familiares. Nesse ínterim, o escritor Andrew Salomon, em seu livro “Longe da árvore”, analisa as questões envolventes da inclusão dentro da família. Com base em sua obra, é coerente a observação de que os laços sanguíneos não garantem uma sólida base de afeto a todos os indivíduos. Entretanto, a promoção dessa ideia, por meio da cultura e do senso comum, permite que se perpetue a ignorância de problemáticas da família.

À vista dos argumentos supracitados, é necessário agir sobre o problema da supervalorização da consanguinidade e seus resultantes. Para tanto, a mídia, principal difusora de informações, deve fomentar a discussão acerca do imbróglio, de forma a identificá-lo e a propôr uma contraposição à importância demasiada garantida aos laços sanguíneos, a fim de facilitar a ruptura dessa ideia e da tendência à tolêrancia da problemática. Como conseguinte, é possível se aproximar da conjuntura imaginada por Rhuas.