A supervalorização dos laços sanguíneos leva a sociedade a ignorar problemas familiares?

Enviada em 18/05/2022

Na série Anne com E, a personagem sente, por ser órfã, a pressão do julgamento por parte da população. A valorização extrema dos laços sanguíneos leva Anne, bem como os irmãos que decidem adotá-la, à uma espiral de preconceito desconstruída ao longo dos episódios. Não distante da ficção, é fato que a exaltação da estrutura familiar corrobora com problemas, como a normalização de abusos parentais e a negação da existência de famílias tóxicas.

A priori, vale ressaltar que nem todas as relações familiares são harmônicas. De acordo com um estudo apontado por Lucy Blake, psicóloga da Universidade do Oeste da Inglaterra, 72% dos entrevistados vivem um relacionamento conturbado com parentes. Além disso, uma pesquisa realizada pelo Comitê Latino-Americano estimou que 52% dos adolescentes sofrem abusos intrafamiliar, sejam físicos ou psicológicos. Porém, mesmo diante dos números alarmantes, a sociedade apresenta postura indiferente à problemática. Isso ocorre, sobretudo, em razão do contexto histórico-cultural imposto aos indivíduos. A importância dada à base parental sobrepõe-se aos índices, trazendo a ilusão de “normalidade”.

Ademais, é evidente que a família, cumprindo o papel de relação social primária na formação do ser humano, adquire um tom imaculado e acaba sendo isentada de qualquer comportamento ruim que venha cometer. O pensamento arcaico ditador das “regras da boa convivência”, tal qual o conceito “sangue do meu sangue”, são contribuintes para a invisibilidade dos núcleos familiares desestruturados. A percepção errônea de que apenas sentimentos bons devem ser direcionados àqueles com quem compartilha-se DNAs incitam a perpetuação da visão conservadora ligada ao tema e, assim, impulsiona a repressão das vítimas.

Portanto, medidas são necessárias para combater o impasse. É dever do Ministério da Educação garantir atendimento psicológico nas escolas, a fim de orientar os jovens e ensiná-los a reconhecer atitudes nocivas em âmbito familiar. Fora isso, cabe à mídia, por meio de produções culturais, desmitificar a concepção de “família perfeita” disseminada compulsoriamente. Apenas assim os efeitos negativos derivados do tópico serão atenuados, elevando a humanidade a outro nível.