A supervalorização dos laços sanguíneos leva a sociedade a ignorar problemas familiares?

Enviada em 11/07/2022

Na obra “Euphoria”, original da HBO, há a narrativa de jovens que, em consequên-

cia das estruturas familiares extremamente turbulentas, são entregues às drogas e a inúmeros traumas. Saindo dos tablados da ficção, a supervalorização dos laços sanguíneos leva a sociedade a ignorar certos problemas nessas relações, acarre-

tando jovens abalados, assim como acontece na trama. Essa problemática resulta de dois principais pontos: da herança histórica de estratificação de gerações e de uma mídia que, através da inviabilização do olhar crítico, romântiza o assunto.

Diante desse cenário, é importante perceber que a construção histórica brasileira exerce um papel crucial na supervalorização dos laços sanguíneos e, consequente-

mente, na normalização dos problemas nessa estrutura. Nesse sentido, com a vin-

da de Dom João VI ao Brasil, a sociedade como um todo passou a sofrer ainda mais influência da cultura da corte europeia, assim, valores como a extrema estratifica-

ção familiar foram enraizados na cultura nacional. Nessa perspectiva, a rigidez das relações adentrou no ciclo da população, o que permitiu a manutenção de um grande poder moral nas mãos dos mais velhos e da subordinação dos mais novos a isso. Dessa forma, o ideal de família perfeita surge em um molde verticalizado, em que qualquer atitude vinda dos ditos superiores é tida como normal, mesmo que essa represente algum dano aos demais.

Outrossim, a mídia brasileira serve como veículo de romantização dos laços, con-tribuindo para o silenciamento dos problemas relativos a esse tema. Nessa con-juntura, assim como alertaram os estudiosos da Escola de Franckfurt, os meios de comunicação desenvolvidos na modernidade são utilizados com o intuito de massi-ficar a população a partir do desenvolvimento de um perfil acrítico e da difusão de valores anacrônicos, como a perfeição da família. Dessa maneira, esse meio ratifica a hierarquia das relações, contribuindo para o silenciamento de atos tóxicos- como a pressão psicológica dos filhos feita pelos pais.

Portanto, em face dessas circunstâncias, cabe à mídia nacional minimizar a ideia de respeito vinculado a total obediência, por meio da abordagem por matérias , em horários nobres, dos problemas desse olhar romântico, com a participação de vítimas dessas relações, a fim de afastar a sociedade da visão acrítica acerca disso.