A supervalorização dos laços sanguíneos leva a sociedade a ignorar problemas familiares?
Enviada em 08/11/2022
No filme Coringa, do diretor Todd Phillips, o personagem principal Arthur Fleck foi abusado por sua mãe em sua infância, porém cuida da mesma e vê esse cuidado como virtude e dever seu, como filho. Essa visão de que os laços sanguíneos são mais importantes que problemas sérios como abuso e maus tratos é muito difundida na sociedade como um todo.
Assim, temos casos de violências verbais e físicas, humilhações, estupros e até assassinatos que poderiam ser evitados caso não houvesse o estigma de que se defender contra tais ataques fosse uma forma de “ingratidão”, ou de que tais problemas deveriam ficar apenas no âmbito familiar. Na filosofia oriental, Confúcio postula o conceito de piedade filial, em que os filhos devem não somente respeitar seus antepassados, mas servi-los de forma assídua, assim como no Ocidente o influente pensador conservador Roger Scruton apoia ideias similares, com sua defesa da ideia de unidade familiar tradicional.
Apesar disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe, de forma clara, o abuso e explorações infantis no Brasil. Desde sua aplicação em 1990, crianças e adolescentes obtiveram mais recursos para se defender de abusadores, que se constituem em grande parte de membros da própria família, mas muitas vítimas são coagidas pelo medo, pois receiam ficar desamparadas ou até sofrerem agressões mais severas ao tentar sair de tal situação e não serem ouvidas em razão da cegueira social para esse tipo de penúria.
Conclui-se, assim, que a questão da invisibilidade do abuso dentro da família por parte da sociedade, deve ser combatida com medidas concretas pelo Ministério da Família e dos Direitos Humanos, em conjunto com o Ministério da Educação, realizando uma campanha nacional de educação contra a invisibilidade do abuso familiar, sendo tal campanha veiculada nos principais meios de comunicação e também nos ambientes escolares. Também deve-se buscar aumentar a rede de apoio para as vítimas, por meio da expansão e criação de casas de acolhimento, delegacias especializadas e atendimento psicológico, para que as vítimas tenham menos receio de falar e por consequência aumentar a visibilidade do abuso cometidos dentro de casa, por pessoas do próprio sangue.