A tecnologia no combate à criminalidade

Enviada em 04/06/2020

No livro “1984”, o mundo distópico de Oceânia segue o sistema pan-óptico, em que o único vigilante - conhecido como Big Brother - controla as ações dos cidadãos os observando. Ao sair da ficção, as tecnologias - assim como o Big Brother - são usadas hoje como meio controlador, diminuindo a criminalidade local. No entanto, é fundamental analisar que esses equipamentos, apesar auxiliares na redução do crime, não combatem a raiz do problema: a desigualdade.

Em primeira análise, é preciso entender que a criminalidade tem relação direta com a desigualdade social e racial, o que torna as tecnologias de vigilância um meio amenizador. Desde o fim da escravidão em 1888, em que os pretos se viram sem qualquer tipo de auxílio governamental, e a favelização - na segunda metade do século XX - devido ao êxodo rural pela mecanização do campo, a população mais pobre se vê inserida num sistema racista que favorece os mais ricos e brancos em direitos e oportunidades, apesar de todos terem direito à igualdade segundo a Constituição. Então, o sentimento de privação em relação aos outros acentua a violência e, por isso, a tecnologia de vigilância é requerida no combate ao crime. Provas que comprovam a teoria são os dados do Pnad, em que a renda dos 1% mais ricos são mais de 30 vezes maior que os 50% mais pobres, e da OMS - a qual diz que o Brasil é o 9º país mais violento do mundo.

Por outra análise, é necessário compreender que as tecnologias de vigilância, em sua maioria, não são avançadas o bastante para diminuir expressivamente o crime. Ao se investir em inteligência e tecnologia, como câmeras de alta resolução, torna-se mais difícil para os criminosos realizarem os atos ilegais, e - ao abranger as opções de observação, tal como drones ou softwares- a qualidade da cobertura aumenta. A adesão da população por meio de aplicativos que registram assaltos, por exemplo, também auxiliam no abrandamento da violência, na medida em que a polícia poderá utilizar esses dados para marcar prioridades na cobertura.

Portanto, é fundamental que a criminalidade seja combatida no Brasil. Para isso, é preciso que a desigualdade seja diminuída e o sistema de vigilância seja melhorado. Nesse intuito, os três poderes devem atuar em conjunto para efetivar políticas públicas de combate à desigualdade, como reforma agrária, investimento na discussão sobre o racismo em instituições educacionais e promoção de ofertas de trabalho, com o objetivo de diminuir o sentimento de privação. Aliado a isso, o Ministério da Justiça precisa liberar verbas para a instalação de melhores sistemas de vigilância nas cidades, no intuito de desestimular os criminosos. A partir dessas medidas, o Brasil em algum momento não precisará mais das câmeras, como a Oceânia precisou do Big Brother.