A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 29/10/2020

Segundo o geógrafo Milton Santos, a globalização apresenta-se de forma perversa, pois a grande maioria da população não usufrui das benesses sociais. Nesse sentido, ao analisar a ‘‘uberização’’, forma de trabalho na era tecnológica, sob o prisma da precarização ou liberdade, nota-se a prevalência do primeiro em relação ao segundo, ratificando o posicionamento de Milton. Desse modo, visualiza-se, não só a exploração da mão de obra, mas também a falta de efetivação da Constituição, como questões que fomentam tal cenário.

A princípio, o pensador Pierre Lévy declara que toda tecnologia cria seus excluídos. Nessa lógica, a ‘‘uberização’’ que viabiliza a liberdade produtiva para alguns, mediante utilização dos ‘‘home-office’’, revela-se para os trabalhadores mais pobres de uma outra forma. Tal realidade explica-se, por sua vez, pelas relações trabalhistas pautadas na terceirização da mão de obra- como mostra a revista Exame- e no emprego informal, os quais, notadamente, mitigam garantias trabalhistas.  Dessa maneira, percebe-se que as novas relações empregatícias que surgem, sobretudo, pelo advento da internet, ainda, reverberam a exploração da população pobre.

Outrossim, a Constituição federal explicita que é dever do Estado garantir um ambiente equilibrado a todos. Entretanto, verifica-se a falta de políticas públicas, com o fito de dirimir os impactos da ‘‘uberização’’ aos trabalhadores menos favorecidos, seja pela precarização da mão de obra dos menos favorecidos, seja pela falta de garantias trabalhistas para tais indivíduos. Nessa perspectiva, os fatos expostos ecoam o ‘‘Enigma da Modernidade’’, do filósofo Henrique de Lima, o qual elucida que a sociedade, apesar de ser avançada em suas razões teóricas, é primitiva em suas razões éticas. À vista disso, nota-se a dissonância entre o que está garantido na Constituição e a narrativa factual, a qual precisa ser resolvida.

Logo, pode-se inferir que questão da ‘‘uberização’’ do trabalho na era tecnológica é uma assunto relevante e precisa de solução. Para tanto, é fundamental que o Poder Executivo realize uma reforma trabalhista- por meio de debates com Ministério da Economia-, a fim de atenuar a exploração dos trabalhadores. Posto isto, é imperioso que tal ação interventiva foque, principalmente, nos profissionais terceirizados e do emprego informal. Ademais, é imprescindível que as ONGs (Organizações não Governamentais), aliadas à mídia, desenvolvam campanhas publicitárias- por intermédio de depoimentos de cientistas sociais- que expliquem a importância de o Estado criar políticas públicas, com o intuito de efetivar a Constituição. Dessa forma, coibir-se-á a perversidade da globalização, como supôs Milton Santos.

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