A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 30/10/2020

Feargus O’Connor e William Lovett foram responsáveis por criar o Cartismo, movimento revolucionário que buscou melhorar as condições trabalhistas e dar um tom humano ao emprego da sociedade inglesa industrial. Entretanto, mesmo com manifestações em prol de melhorias na vida do trabalhador ainda no século XVIII, é perceptível que na era tecnológica muitos indivíduos têm sofrido pelo processo de “uberização” do emprego. Acerca das causas e consequências desse problema, é possível citar, respectivamente, o desemprego estrutural no Brasil e as baixas condições de trabalho.

Primeiramente, de acordo com o renomado geógrafo Milton Santos, a propagação da Terceira Revolução Industrial promoveu grande desigualdade social no Brasil, pois causou maior exigência no mercado de trabalho e auxiliou no crescimento do desemprego estrutural pela manutenção de um sistema educacional público de reduzida qualidade. Sob tal óptica, muitos brasileiros menos abastados não conseguiram boa formação educacional e, por não serem aprovados pelo mercado, passaram a buscar formas alternativas ao sistema de labor tradicional, entre elas é possível citar os empregos digitais, como os oferecidos pelos aplicativos: “Uber”, “Ifood” e “Rappi”. Portanto, percebe-se que o impasse em questão está intimamente relacionado com o desemprego que permeia a sociedade brasileira e o ensino de baixa qualidade oferecido às massas, situação que merece maior atenção.

Além disso, é importante comentar as mazelas que o processo de “uberização” traz à vida do trabalhador. A esse respeito, é possível dizer que muitos trabalhos surgidos na era tecnológica não respeitam nem aderem à Carteira de Trabalho e os direitos laborais vindos com a promulgação da Constituição de 1988 - como comprovado no manual do funcionário do aplicativo Uber. Dessa forma, os empregados não possuem um salário fixo, limites no horário da atividade laboral, infraestrutura empresarial e seguros contra acidentes de trabalho. Nesse sentido, apesar da liberdade dada pelos empregos em questão, eles aumentam a fragilidade do  trabalhador e não lhes oferece uma estrutura apta para exercerem a profissão.

Com base no exposto, fica clara não só a relação entre o trabalho na era tecnológica e o desemprego brasileiro, como também a necessidade de evitar as mazelas da subcontratação. Para tanto, o Poder Legislativo deve, por meio de um projeto de lei entregue à Câmara dos Deputados, melhorar a qualidade da educação pública nacional. Assim, tal lei estabelecerá  tanto aumentos no salário dos professores das instituições públicas de ensino fundamental e médio, como a distribuição de livros, carteiras, quadros e veículos coletivos pelos Governos Estaduais às escolas mais precárias. Com isso, as massas obterão maior aprovação no mercado de trabalho e segurança no emprego.