A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 30/10/2020
De acordo com o filósofo Zygmunt Bauman, uma característica marcante da pós-modernidade, a qual ele adjetiva como “líquida”, é a formação do precariado, uma nova classe de trabalhadores escolarizados, porém, em condições ruins de trabalho. Nesse contexto, a “uberização” do trabalho faz-se presente com o uso intenso das tecnologias de informação, que estão encurtando distâncias na mesma proporção em que fragilizam as relações de trabalho, sendo imperiosa a ampliação de medidas a fim de minimizar os impactos desse cenário. Para tanto, deve-se ponderar a importância da adaptação à conjuntura emergente, bem como a falsa noção de liberdade criada por ela.
Em princípio, vale dizer que, diante das novas tecnologias, o mundo do trabalho urge por adaptações. Nesse sentido, a onda de terceirizações, os motoristas de aplicativos, além das novas profissões surgidas com a era tecnológica, acabam por reverberar insegurança ao indivíduo, uma vez que não existem medidas claras e capazes de garantir seu serviço e bem-estar. Paralelamente, com a Primeira Revolução Industrial no século XVIII, as condições dos trabalhadores nas fábricas eram desumanas, chegando a ultrapassar dezoito horas diárias. Logo, a visão das grandes empresas e do Estado, que uma vez perpassaram a humanização do trabalhador em detrimento do lucro no século XVIII, deve adaptar-se a nova realidade para reajustar as condições de trabalho e evitar a precarização.
Outrossim, se por um lado há autonomia, para os motoristas de aplicativos por exemplo, por outro há carência de uma assistência. Nesse âmbito, o discurso de “liberdade” trazida por essa nova modalidade de emprego é na verdade uma forma de fragilizar a relação do trabalhador com a empresa. Segundo o sociólogo Karl Marx em seu conceito acerca do fetiche da mercadoria, o trabalhador é objetificado e a mercadoria personificada. Nesse caso, na medida em que existe fragilidade das relações de trabalho, mais fácil é descontratar empregados, e mais lucro essas empresas obtêm sem compromissos que impeçam a objetificação do sujeito. Assim, a liberdade conseguida pela “uberização” do trabalho torna-se uma via de mão dupla em que consegue-se autonomia às custas da dignidade.
Em síntese, medidas devem ser efetivadas a fim de mitigar os impactos da “uberização” do trabalho. Dessa forma, o Estado deve trazer mais segurança aos trabalhadores de aplicativo por meio de leis que imponham condições dignas de trabalho - com normas similares ao trabalho formal como as férias remuneradas - com vistas a diminuir o precariado. Ademais, o Governo Federal pode incentivar campanhas para a valorização de entregadores de aplicativo a partir dos próprios clientes que possuem contato direto com os trabalhadores - para então humanizar o trabalhador e não objetificá-lo. Desse modo, contruir-se-á bases para as novas mudanças que estão por vir na era tecnológica.