A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 30/10/2020

Na trilogia de ficção científica “Fundação”, por Isaac Asimov, o leitor é introduzido a um futuro distante, no qual as relações de poder ainda são regidas pelo capital e os economistas são os únicos capazes de acabar com as mazelas da galáxia. Apesar de ser ficção, o trabalho na era tecnológica sofreu mudanças, como a “uberização” – uma descentralização e terceirização de um trabalho não assegurado por leis trabalhistas –, mas ainda é determinante na luta de classes. Dessa forma, esse fenômeno significa precarização, ao fantasiar-se de liberdade, e prejudica a economia nacional.

A princípio, segundo Karl Marx, a mais-valia é uma forma de exploração do trabalhador, na qual seu salário é desvalorizado a fim de gerar mais lucro aos empregadores. Dessa maneira, percebe-se que a mais-valia não depende do espaço físico de uma indústria ou empresa, uma vez que a “uberização” encarcera os motoristas e entregadores de aplicativos (ou “apps”), como Uber, Rappi, iFood etc., os quais, presos no ciclo diário e perpétuo da oferta e demanda capitalista, precisam trabalhar por períodos exaustivos a fim de ganhar pagamentos medíocres, mas sem a leis trabalhistas. Com isso, sem entender a lógica por trás do faturamento dessas ferramentas virtuais, muitas pessoas enganam-se com uma liberdade ilusória; por poderem escolher quando trabalhar, creem que dominam um sistema, quando, de fato, este as domina.

Além disso, Robert Kyiosaki explica em seu livro “Pai Rico, Pai Pobre” que a única diferença entre classes alta e baixa é a educação financeira. Nesse sentido, a escolha por trabalhar para “apps” de entrega é um perigo para a economia do país, uma vez que a força de trabalho majoritariamente jovem – cerca de 79% dessa mão de obra têm menos de 30 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –, no desejo de alcançar a independência financeira, ou complementar a renda da família, abre mão de ser dona de seu próprio negócio para enriquecer os donos dos aplicativos. Logo, a alfabetização financeira previne que os jovens caiam nessa “Corrida dos Ratos”, como é chamado por Kyiosaki esse ciclo vicioso, e tornem-se empregadores, ao invés de empregados, além de garantir uma verdadeira, não ilusória, independência financeira.

Portanto, é dever do Ministério da Educação investir na educação financeira, por meio da atualização do currículo pedagógico das instituições de ensino – inserir matérias para ensinar sobre economia, finanças pessoais etc., estimular os professores a colocar em prática as teorias estudadas em sala de aula, entre outras coisas –, a fim de preparar os jovens para o mundo no século XXI. Dessa forma, será possível desestimular a participação dos jovens no trabalho “uberizado”, prepará-los para alcançar sua independência financeira e proteger a economia nacional.