A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 30/10/2020
O filme ‘‘Você não estava aqui’’, de Ken Loach, aborda o cotidiano de um motorista entregador e apresenta, de forma didática, o significado da palavra precariado- fusão dos termos precariedade e proletário- que remete a nova classe emergente, a qual não possui direitos trabalhistas. De tal forma, a realidade encontra-se paralela a obra, sendo consequência do desemprego e da contínua crise econômica. Denominada como ‘‘uberização’’, a modernização dos vínculos trabalhistas, decorrente da popularização de aplicativos para contratação de serviços, resulta na informalização do trabalho em seguimento à famigerada precarização.
Dados divulgados pela Análise Econômica Consultoria evidenciam o agravamento do desemprego no Brasil, em 2020, quando o número de motoristas e entregadores de aplicativos cresceu 158%, apenas no primeiro semestre. Ademais, a pandemia do Covid-19, período no qual milhares de pessoas perderam seus empregos, aliada ao alargamento da crise econômica, fez surgir a busca por novas fontes de renda, entre elas a prestação de serviços informais, sobretudo, em aplicativos de entrega. Além disto, o pagamento obtido por meio daqueles, funciona de acordo com a demanda e a oferta, dessa forma, os preços dos produtos oscilam, o que gera a impossibilidade para uma remuneração fixa aos entregadores. No mais, a perda de leis trabalhistas, como por exemplo, pagamento de horas extras e décimo terceiro, somada ao excesso de trabalho e a responsabilidade com os custos dos equipamentos para realização do ofício, tornam evidente a precarização do trabalho na era tecnológica.
Outrossim, a greve nacional dos entregadores, no então ano de 2020, mobilizou milhares dos prestadores de serviços de aplicativo, estes exigiam melhorias nas condições de trabalho, transparência na dinâmica de funcionamento das tarefas e novas formas de remuneração. Como se não bastasse, as empresas donas dos aplicativos não concedem auxílio para aqueles que se contaminam com o coronavírus, de tal modo, até mesmo doente, o entregador encontra-se sem garantias aos direitos referentes à sua renda mensal e segurança. Sob esta ótica, o trabalho uberizado é acompanhado de inúmeros déficits que transparecem, periodicamente, no cotidiano.
Destarte, faz-se necessário a reformulação das práticas trabalhistas junto ao combate a precarização do trabalho na era tecnológica. As grandes empresas, responsáveis pelos aplicativos de serviço, devem escutar as reivindicações dos entregadores por meio da seleção de representantes em todas capitais, assim, de forma justa e organizada, os interesses de ambos estarão entrelaçados e, uma vez que realizada melhorias no trabalho uberizado, as greves se tornarão dispensáveis. Por fim, quaisquer forma de precariedade ou injustiça para com os trabalhadores, devem ser revistas e modificadas.