A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 04/11/2020

Na obra “O Doador”, de Lois Lowry, é retratada uma sociedade perfeita, a qual cria mecanismos para um equilíbrio absoluto com a ausência de conflitos e de problemas. Entretanto, o que é visto na realidade é o oposto da comunidade fictícia do livro, uma vez que a “uberização” está cada vez mais presente na sociedade e, como consequência, a precarização das condições de trabalho também. Esse cenário antagônico é fruto das longas jornadas de trabalho e da falsa ideia de parceria entre o trabalhador e a empresa.

Precipuamente, é fulcral pontuar que, devido a crise financeira de 2008, iniciada nos EUA e posteriormente espalhando-se pelo mundo, o número de trabalhos informais aumentou. Por consequência, surgiram várias empresas digitais prestadores de serviços, tais como Uber e iFood. No entanto, com o crescimento dessas corporações, também cresceu as situações desfavoráveis para o empregado, como as longas jornadas de trabalho para atender as elevadas demandas. Dessa maneira, a Associação Aliança Bike estima que, em 2020, na cidade de São Paulo, 30 mil ciclistas realizaram serviços constantes para empresas digitais de delivery e, em média, trabalharam 12 horas por dia, com um salário próximo de 936 reais - valor baixo do salário mínimo. Essa situação é, para muitos, um absurdo, uma vez que evidencia a exploração do trabalhador e sua baixa remuneração, além de estarem suscetíveis a acidentes, já que os horários com mais pedidos de entrega são geralmente no período noturno e, ainda, muitas ruas e estradas não possuem sinalização, tampouco faixa exclusiva para ciclistas.

Ademais, além das elevadas jornadas, também existe uma salsa sensação de parceria entre essas empresas digitais e seus empregados. Dessa forma, muitas corporações oferecem benefícios atrativos para motoristas e, gradualmente, retiram essas vantagens, afetando de maneira significativa o salário dessas pessoas. Como conseguinte disso, em julho de 2020, no Brasil e vários outros países, milhares de motoristas de aplicativos fizeram uma paralisação geral do setor, alegando a falta de direitos laborais, como o auxílio saúde, a baixa remuneração e punições sem explicações, impedindo-os de trabalharem. Essa realidade é, para muitos, lamentável, todavia demonstra o quanto, ainda hoje, há setores da economia que são marginalizados em relação às leis trabalhistas, expondo os funcionários a situações de risco sem nenhuma garantia de ajuda desses estabelecimentos.

Infere-se, portanto, que medidas exequíveis devem ser tomadas para solucionar o problema da uberização. Dessarte, com o intuito de mitigar o problema, necessita-se, urgentemente, de que o poder público regularize a profissão desses motoristas, oferecendo os direitos laborais básicos, como limite na jornada de trabalho, salário mínimo e auxílio saúde, além de fiscalizar com frequência a situação desses profissionais. Essas medidas serão realizadas mediante parcerias com o sindicato dos motoristas e por meio de um projeto de lei, visando a garantir os direitos básicos e condições favoráveis de trabalho. Dessa maneira, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, o impacto nocivo que essa problemática causa, e a coletividade chegará mais perto do quilíbrio absoluto da obra “O Doador”, de Lowry.