A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 03/11/2020
No livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, uma cegueira generalizada acomete o corpo social, o que pode ser interpretado como o estado de apatia e de irreflexão da sociedade pós-moderna. Ao mergulhar nessa distopia, para tecer reflexões sobre a “uberização” do trabalho, vê-se a necessidade de se construir uma consciência coletiva, baseada na empatia e na reflexão, na sociedade hodierna. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a economia ligada à tecnologia interfere no modo de produção atual, ressaltando o processo de exclusão social, bem como esclarecer por que essa mudança no mercado de trabalho cria uma falsa impressão de liberdade nos agentes envolvidos.
Em face dessa proposição inicial, é preciso dizer que, com a Quarta Revolução Industrial, foi criado um processo de dependência entre o homem e a máquina, que é fomentado pela informação. Nessa lógica, em uma analogia ao pensamento de Saramago, é notória uma sociedade marcada pela letargia, uma vez que, em uma coletividade em que o acesso à internet é restrito, os recursos tecnológicos são utilizados para desenvolver quaisquer serviços. Isso significa que a população de baixa renda, que não possui condições financeiras para comprar aparelhos digitais, é prejudicada, o que marca a precarização da “Era virtual”. Dessa forma, percebe-se um cenário de exclusão social dos menos favorecidos, apesar do importante papel exercido pela tecnologia de dinamizar a economia.
Convém assinalar, ainda, que as novas relações de trabalho, por meio da tecnologia, são construídas a partir de uma estrutura piramidal, em que os donos de aplicativos estão no topo e os funcionários contratados na base. Nesse contexto, ganha voz a concepção de Rousseau, filósofo contratualista, na obra “Do Contrato Social”. Conforme o pensador, a ordem e o bem-estar social devem ser assegurados pelo Estado, ou seja, há uma ruptura do contrato social, já que o governo não orienta a população sobre a falsa impressão de liberdade criada por essa dinâmica trabalhista. Essa conjunção de fatores revela um cenário em que o individuo acredita estar livre, porém recebe ordens de uma máquina.
Diante dos argumentos supracitados, é necessário concentrar esforços em reverter o quadro da precarização das relações de trabalho no Brasil. A priori, cabe ao Ministério da Economia criar politicas públicas que assegurem o acesso à internet para todos, a partir de facilitações financeiras para as pessoas de baixa renda na compra de aparelhos tecnológicos, a fim de reduzir a exclusão social. De modo complementar, o Ministério da Educação deve orientar a população sobre como lidar com as novas relações de trabalho, por meio da criação de uma disciplina sobre a “urberização” dos serviços na Base Nacional Comum Curricular, com o fito de desconstruir a falsa liberdade do trabalhador. Promovidas essas ações, espera-se melhorar o cenário de letargia abordado na obra de Saramago.
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