A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 04/11/2020

A tecnologia sempre acompanhou a evolução da humanidade. Com o advento e massificação da internet, os meios de comunicação e interação sofreram inúmeras mudanças, que espelham no modo de vida e organização da sociedade, impactando na qualidade de vida e formas de trabalho existentes. Entretanto, a chamada ‘‘uberização’’ do trabalho, conceito atribuído a flexibilização na qual o trabalhador não cria vínculos com empresas, ou seja, sem carteira assinada, traz uma ilusória ideia de liberdade por beneficiar apenas uma pequena parcela social, enquanto a maioria -trabalhadores informais- ficam à margem da precariedade.

Em primeira análise, é preciso considerar que essa flexibilidade no trabalho pode trazer uma melhora na qualidade de vida da população. Isso porque o uso do celular, que antes era somente para comunicação, hodiernamente ganhou uma série de atribuições com a finalidade de aumentar o conforto da população, com a criação de aplicativos como o ‘‘ifood’’, que facilita a compra de comida e possibilita que o usuário a faça onde estiver. Com isso, a sociedade se encontra com uma maior comodidade e praticidade, visto que com essas transformações tecnológicas o ser humano ganha não só a economia de tempo, mas também um encurtamento de distância entre o comprador e a empresa.

Por outro lado, é valido ressaltar que com a ‘‘uberização’’, o trabalhador informal fica desamparado das leis que protegem o trabalhador terceirizado. Pierre Boudieu, filósofo francês, elucida violência simbólica como opressões morais sofridas por um indivíduo ou grupo social, ou seja, quando uma minoria sofre abuso por parte de outros, sejam elas físicas ou não. Tal fato ocorre com os trabalhadores que se submetem ao trabalho sem carteira assinada, uma vez que sem vínculos com a empresa, o empregado não tem direitos básicos, assim como auxílio à doenças, férias remuneradas ou décimo terceiro salário. Logo, o que poderia ser algo vantajoso ao flexibilizar as relações, pode acarretar problemas para os informais, gerando somente uma aparente ideia de liberdade.

Em suma, torna-se evidente que a ‘‘uberização’’ do trabalho pode trazer benefícios para a sociedade. Entretanto, para isso, o Governo, por intermédio do Ministério do Trabalho, deve regulamentar leis que garantem direitos básicos ao trabalhador informal, por meio da criação de aplicativos nos quais as empresas que optarem por não terceirizar os funcionários terão que se cadastrar e pagar uma renda mensal para assegurar a qualidade de vida dos trabalhadores. Somente assim, haverá um ambiente propício para a evolução dos modos de trabalho no Brasil.