A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 25/09/2021

Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas suficientes ajam sobre ele, sobrassaindo sua inércia. Esse é o hodierno cenário da “uberização” do trabalho na era tecnológica: uma inércia que perdura no paradoxo entre a flexibilidade do sistema em detrimento à instabilidade nos lucros dos prestadores do serviço. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.

Vale ressaltar, a princípio, que, de acordo com o IBGE, o número de pessoas que trabalha como motoristas de aplicativo, taxistas e motoristas e trocadores de ônibus, aumentou 29,2% em 2018, a maior alta desde 2012. Isto posto, tal realidade se deve, principalmente, a maleabilidade da plataforma, visto que, ao captar novos parceiros, os aplicativos garantem liberdade, retorno financeiro rápido, possibilidade de renda extra e mais tempo para vida pessoal. Além disso, os aplicativos oferecem cadastro sem burocracia para ambas partes e, para mais, são os trabalhadores quem definem seu horário de trabalho e são seus próprios chefes, êxito dificilmente encontrado em outros veículos empregatícios.

Sob outro prisma, faz mister salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou na obra “Memórias Póstumas, que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Possivelmente, hoje, ele perceberia quão certeira foi sua decisão, pois o atual cenário da inconstância da remuneração dos funcionários é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Aprofundando mais, tais preços variam de acordo com a demanda, o dia, o horário, a localidade, entre outros fatores que são determinados por algoritmos, realidade que contribui para alienação do trabalhor, tendo em vista que tem que arcar com os custos do trabalho e dos equipamentos necessários, como carro, motocicleta, bicicleta e mochila térmica. Além disso, essa instabilidade acarreta no aumento de horas trabalhadas, sem alimentação e o descanso necessário, ocasionando em um dilema social com dimensões cada vez maiores.

Destarte, forças externas devem ser efetivadas, vencendo a inércia proposta por Newton. Dessa forma, urge que os aplicativos de prestação de serviço - como a Uber - melhore as condições de trabalho vivenciadas, por intermédio de valores fixos a cada rota e função, para que os funcionários tenham rendimento estabilizado,  a fim de romper a precarização debatida anteriormente e aumentar o número de parceiros das plataformas. Somente assim alcançar-se-á um corpo social eficiente e justo, porquanto, como referido por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.