A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 11/11/2020

O filósofo Sigmund Freud, em seu texto “O futuro de uma ilusão”, alerta os leitores para o fato de que quanto menos um indivíduo conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro será com relação ao futuro. Ao estabelecer esse olhar psicanalítico como ponto de partida, para fundamentar a discussão acerca da “uberização” do trabalho na era tecnológica, torna-se pontual compreender o atual cenário brasileiro. Assim, pode-se questionar a quarta revolução industrial e sua exclusão dos que não têm acesso à tecnologia, bem como analisar o porquê da liberdade não justificar a precariedade do mercado.

A partir dessa proposição inicial, é preciso entender que a quarta revolução industrial beneficia uma parcela da população, enquanto prejudica outra, em razão da digitalização dos serviços. Inclusive, observa-se que a inteligência artificial passou a comandar a ação humana no século XXI, como, por exemplo, nos aplicativos “Uber” e “Ifood”. Nesse sentido, não há dúvidas de que, como atesta Freud, o conhecimento determina o comportamento dos indivíduos. Isso significa que, com relação à exclusão dos desfavorecidos no mercado tecnológico, é necessária a melhor consciência e empatia da população para com eles.

Ainda nesse contexto, não se pode esquecer da onda de precariedade no mercado sendo vista atualmente e da ilusão de uma liberdade de produção. Aliás, fica claro que a liberdade do trabalhador não pode ser superior à qualidade do seu produto ou do seu serviço, visto que a regulamentação das redes de trabalho descentralizado é bem mais complexa. Nessa perspectiva, acentua-se a necessidade de fiscalização da qualidade do mercado terceirizado, uma vez que, como alerta o filósofo Luc Ferry, virtude e ação desinteressada são inseparáveis. Em outras palavras, é preciso pensar na prática do bem comum, na medida em que clientes estão adquirindo produtos sem regulamentação de segurança e vendedores estão trabalhando com baixa remuneração e sem direito às vantagens das leis do trabalho estatal.

É preciso, portanto, promover ações que realmente possam alterar esse quadro. Logo, é imprescindível que o Ministério do Desenvolvimento Regional organize uma nova parceria público-privada na construção de centros tecnológicos de uso grátis em áreas de vulnerabilidade social, para que os moradores em condições menos favorecidas possam fazer o uso de computadores, wi-fi e outras tecnologias. Em paralelo, cabe ao Ministério da Saúde a ampliação de programas de fiscalização nas menores empresas e comércios, com o objetivo de garantir a qualidade do produto oferecido aos clientes. Tomadas tais ações, espera-se a queda da precarização causada pela “uberização” do trabalho, seguindo o proposto por Freud.