A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 04/11/2020

Desde que Henry Ford desenvolveu o modelo de produção em massa de veículos com o “Ford T” o trabalho nunca mais foi o mesmo. Com o passar dos anos a tecnologia utilizada nas atividades laborais foi moldando o perfil do empregado e, além disso, substituiu os modelos tradicionais de emprego. Hodiernamente, o trabalho sob demanda, se popularizou no país, privando seus associados direitos básicos como plano de saúde e previdência. Esse é um problema que está relacionado diretamente à realidade do Brasil seja pela negligência governamental, seja pela indiferença social.

A princípio, é incontestável que a inoperância governamental esteja entre as causas do problema. Poucas são as políticas públicas que garantem os direitos trabalhistas para os parceiros de aplicativos, que não são considerados pela lei como empregados formais. Nesse prisma, de acordo com o filósofo Johm Locke, configura-se uma violação do “contrato social”, já que o Estado não cumpre sua função constitucional de proporcionar qualidade de vida aliado ao direito ao trabalho. Decerto, isso se exemplifica na reportagem publicada pelo G1, em 2019, que informa que hoje não tramita no congresso nenhuma lei que beneficie esses trabalhadores, demonstrando o descaso que vivem esses trabalhadores.

Outrossim, destaca-se a cultura da indiferença perpetuada por parte da população, que muitas vezes, devido ao senso comum, acabam não fazendo uma reflexão sobre a prejudicialidade das relações empregatícias entre os parceiros e as empresas-aplicativo. Isso é concordante com o pensamento de A. Schopenhauer de que os limites do campo da visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo que a cerca. Tal fato se demonstra no documentário “Vidas Entregues” da cineasta Irene Ferraz que mostra a apatia dos usuários de aplicativo frente aos problemas dos entregadores, esse descaso generalizado desencadeia um efeito negativo que faz com que as empresas continuem praticando um modelo de negócio que não atende mais ao operário.       Diante desse cenário, é mister que o Congresso Nacional promova o reconhecimento dos prestadores de serviço, por meio da modificação da lei vigente determinando as obrigações trabalhistas para essas empresas-aplicativo, a fim de alterar o modelo de negócio dessas organizações, sendo isso necessário para melhorar a qualidade de vida dos empregados. Além disso, as instituições educacionais devem capacitar a população sobre a importância do trabalho digno, por meio de campanhas de conscientização vinculados nos principais meios de comunicação, para que, gradativamente, os efeitos que começaram a partir do modelo de produção de Ford sejam minimizados.