A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 07/11/2020
Solvente universal
Segundo o filósofo Zigmund Bauman, o mundo pós moderno caracteriza-se por uma mercantilização das relações humanas. Nesse contexto, o mercado favorece a dissolução de laços, quando terceiriza a mão de obra e reduz os direitos do trabalhador. Isso ocorre não só pela presença das tecnologias digitais mas também devido à busca pela liberdade individual.
Observa-se que a inteligência artificial modifica ou exclui profissões. De fato, se o indivíduo não estiver além do que é exigido atualmente em seu emprego, logo ele será substituído. Como consequência, sem saber onde estará em cinco anos, não há como juntar dinheiro, constituir família , adquirir um patrimônio. Dessa forma, laços familiares são dissolvidos no que Bauman chama de trabalho líquido.
Além disso, ao buscar maior liberdade o próprio trabalhador se expõe à precariedade. É o que se vê no desenvolvimento de projetos em “homework”. Se por um lado existe a possibilidade de grandes lucros no conforto do lar, na outra via está a pressão para superar as expectativas até ser substituindo por outro que apresente algo mais inovador. Tal “uberização” vai além dos entregadores motorizados e afeta vários segmentos, como professores, engenheiros, entre outros. Nesse caso, ocorre o simples descarte de pessoas sem direito a indenizações ou seguros que mantenha as necessidades básicas.
Por todos esses aspectos, as novas relações de trabalho geram uma fluidez nas instituições como um solvente que dissolve leis trabalhistas e relações estáveis. Dessa forma, é necessário intervenção do poder público por meio das secretarias municipais de educação ao disponibilizar cursos de capacitação e reciclagem a profissionais que estejam afastados há pelo menos um ano do mercado. Ainda, seria possível uma maior discussão para aproximar o currículo do ensino básico e superior das exigências atuais. Assim, é possível mitigar os efeitos da sociedade líquida no mercado de trabalho.