A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 10/11/2020

O Futurismo, movimento artístico europeu do século XX, retrata em suas obras o movimento e a aceleração característicos de uma nova era marcada pela inovações tecnológicas que permitem a maior conexão entre pessoas o encurtamento de distâncias. Nesse viés, observa-se esse processo de integração no atual fenômeno conhecido como “uberização” do trabalho, que consiste na criação de empresas responsáveis por intermediar a entrega de produtos entre lojas de aplicativo e consumidores. No entanto, esse novo sistema contribui diretamente para a precarização do serviço, uma vez que não garante direitos básicos à mão-de-obra, a qual acaba negligenciada e obrigada a submeter-se a situações extremas sem a possibilidade de ascensão social.

Em primeira análise, é lícito afirmar que a falta de legislação no que concerne ao auxílio aos trabalhadores do setor de entregas contribui para o processo de precarização. Nesse sentido,o filósofo John Locke afirma que as leis foram feitas para os homens e não para as leis. Com isso, depreende-se que a ausência de normas trabalhistas direcionadas a esse público, muitas vezes, o obriga a seguir jornadas de trabalho exaustivas, ainda que com o risco de acidentes de trânsito, somente para ter em troca de um salário digno. Tendo isso em vista, constata-se a negligência desse grupo por parte de seus contratantes e do próprio Estado, que ignora a lacuna legislativa referente a essa problemática.

Em segunda análise, nota-se que a longa jornada de trabalho priva essas pessoas do acesso à carteira assinada, visto que o alto número de horas dedicadas ao ofício impede que elas consigam, futuramente, um emprego formal. Diante disso, a série de televisão norte-americana “Grand Army” aborda, por meio da personagem Dominique, a dificuldade de uma jovem em concluir seus estudos quando é necessário que ela trabalhe para ajudar no sustento familiar. Fora da ficção, é possível estabelecer um paralelo com os entregadores, que, ao precisarem se dedicar ao serviço, carecem de tempo para focar na educação e acabam por não se especializarem conforme é exigido pelo mercado atual. Dessa maneira, a maioria dos trabalhadores desse setor não alcança a ascensão econômica, não obstante o esforço laboral.

Por conseguinte, medidas são necessárias para reduzir o teor precário do processo de “uberização”. Dessa forma, é essencial que o Poder Legislativo, por meio de plebiscitos, aprove projetos de lei que obriguem as empresas a reajustar o valor da entrega anualmente conforme a inflação e a oferecer equipamentos de proteção contra acidentes de trânsito, a fim de providenciar melhores condições de serviço aos contratados. Assim, será possível assegurar aos cidadãos mais dignidade no âmbito laboral.