A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 02/01/2021
A volta de Carlitos
No livro “Leviatã”, de Thomas Hobes, há uma análise sobre o comportamento humano, o qual é movido por alta competitividade. A partir disso, segundo ele, o homem estaria em constante guerra de todos contra todos. Algo semelhante se percebe na contemporaneidade, posto que, com a uberização do trabalho, cria-se a ilusão de que a maior liberdade trará melhor competitividade. Contudo, nota-se uma maior precarização do trabalho, visto que existe tanto uma banalização das condições de serviço quanto uma desintegração das normas mercadológicas.
Diante desse cenário semelhante ao ocorrido no filme “Tempos Modernos”, o trabalhador que está sujeito à lógica da uberização compartilha de situações insatisfatórias de trabalho assim como Carlitos - interpretado por Charles Chaplin. A alta cobrança por lucros gera uma extrema competitividade entre os indivíduos que almejam conquistar seu espaço no mercado e, mediante a isso, sujeitam-se a condições precárias. Dessa forma, o Carlitos contemporâneo é aquele que tem seus direitos minimizados em prol da liberdade, não sendo mais do que um objeto em busca de lucros para as empresas, as quais banalizam sua situação de trabalho.
Além dessa desumanização do ser humano, a uberização do trabalho gera uma desintegração das normas mercadológicas. Essa anomia -em alusão à Émile Durkheim- promove perdas das tradições morais trabalhistas, uma vez que a maior liberdade laboral, proporcionada pela uberização, causa desvantagens às empresas que não seguem esse caminho. Logo, cria-se um mercado desigual entre as instituições que pagam todos os impostos garantidores dos direitos do trabalhador e aquelas que não cumprem os termos morais do mercado de trabalho.
Portanto, para combater a precarização do trabalho, é necessário que o Estado promova um cumprimento, por parte das empresas, dos direitos do trabalhador. Isso deve ser feito por meio da criação de medidas -como multas ou leis- as quais as instituições devam realizar como forma de permissão para continuarem funcionando. Com isso, o trabalho será mais digno e não haverá mais um Carlitos contemporâneo.