A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 28/11/2020

No século XVIII, o filósofo John Locke afirmou que os homens têm, como direitos inalienáveis, garantia à vida, à propriedade e à liberdade. Entretanto, a “uberização” do trabalho — regulação de empregos feita por intermédio de aplicativos de empresas — coloca essas prerrogativas humanas em lados opostos, visto que o indivíduo, apesar de autônomo, pode potencialmente colocar sua integridade física em risco e está sujeito a arcar com todos os gastos necessários para que possa trabalhar, o que prejudica não só o trabalhador, mas toda a sociedade. Nesse sentido, convém analisar essa conjuntura paradoxal na era tecnológica.

Em primeira análise, é importante destacar que, embora a oferta dos serviços prestados seja feita mediante o ambiente virtual, a tecnologia não é responsável pela precarização ocorrida. Com a terceira Revolução Tecnocientífica, no século XX, as ferramentas disponíveis para o aprimoramento da transmissão de informações permitiram que as empresas do setor tecnológico criassem instrumentos que provocou início a uma espécie de “neoterceirização” dos cargos. No entanto, diferente da terceirização tradicional, em que o proletário era assistido pela instituição contratadora, essa nova forma possibilitou uma total emancipação em que o indivíduo pode montar uma jornada flexível. Todavia, a independência proporcionada tem altos preços, tendo que essas pessoas não recebem salário mínimo, não possuem férias remuneradas nem seguros de vida. Desse modo, é evidente que o principal causador da precariedade não é o cenário tecnológico, mas a falsa liberdade que essas ocupações aparentam oferecer.

De outra parte, denota-se que as consequências geradas pela insalubridade não se limitam às vítimas dos possíveis acidentes. De acordo com Émile Durkheim, a sociedade é um organismo vivo em que os integrantes contribuem para o funcionamento do todo, logo, se um vai mal, o todo entra em colapso. Nesse contexto e com base na lógica do sociólogo, o G1 noticiou que um motorista de aplicativo teve 95% do corpo queimado pelos criminosos e, devido a ausência de assistência trabalhista, está dependendo da rede pública, o que aumenta ainda mais a superlotação do  SUS — Sistema Único de Saúde. Não obstante, é possível afirmar que, se o vitimado for o provedor financeiro, toda a família estará prejudicada emocional e financeiramente. À luz disso, é essencial que haja mudanças nesse cenário.

Urge, portanto, que medidas sejam tomadas para que a liberdade e vida sejam garantidas, conforme afirma o célebre iluminista inglês. Para isso, a população deve cobrar do Ministério da Economia a necessária discussão acerca de reformas que permitam que os jovens invistam tempo na formação profissional para conseguir cargos em sua área de atuação e que assegurem todos os benefícios. Para tal fim, seria razoável o reajuste do salário mínimo de famílias com crianças em idade escolar, de mod que se tornem mão-de-obra especializada no futuro e que esses ocupações não sejam uma necessidade, mas apenas uma maneira de tobter renda adicional. Com essas ações, espera-se a atenuação dos impasses citados.