A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 15/12/2020

Conforme o sociólogo Zygmunt Bauman em sua obra “Modernidade líquida”, é abordado como as relações humanas tornaram-se frágeis e individualistas. Diante disso, é possível traçar um paralelo com as interações no meio laboral ao dizer que a estabilidade do emprego vem cedendo lugar para um trabalho mais autônomo que flexibiliza os direitos do proletariado descritos na Carta Magna brasileira. Assim, na contemporaneidade, surge a “uberização” do trabalho causada pelos altos índices de desemprego do país e pela necessidade de renda rápida.

A princípio, de acordo com as teorias contratualistas, os cidadãos fazem um pacto com o governante visando a segurança e o bem comum. Contudo, é perceptível que, em um país que ultrapassa os 14 milhões de desempregados, esse “acordo” não é respeitado. Dessa forma, as pessoas submetem-se a alternativas, uma vez que precisam cuidar de suas famílias, o que contribui para a precarização do trabalho. Por conseguinte, essa parcela da população que depende de um salário vive refém de incertezas e inseguranças pois não há um faturamento fixo, além de colocar sua própria vida em risco durante a jornada de trabalho.

Sob outra análise, a autora modernista Lígia Fagundes Telles diz que nascer no Brasil até que é bom; ruim é não ter voz e nem vez. A partir disso, é notório que se não há a resolução da problemática da falta de emprego, cada vez mais pessoas estarão sujeitas ao trabalho terceirizado. Logo, isso resulta em uma sociedade estagnada economicamente pois o enriquecimento torna-se praticamente utópico em decorrência do baixo lucro que é majoritariamente utilizado para pagar as despezas. Nesse viés, mesmo que esse tipo de serviço seja mais flexível, o trabalhador acaba perdendo seus direitos e vive à mercê da sorte, já que ganha proporcionalmente ao que é consumido.

Portanto, a partir do exposto, pode-se dizer que observa-se uma maior precarização laboral do que uma liberdade propriamente dita. Destarte, cabe ao Governo Federal buscar iniciativas que auxiliarão na mitigação do desemprego e na redução da inflação, por meio de ações como as utilizadas durante o “New deal”, nos Estados Unidos, que foi essencial para que o país se recuperasse da crise de 1929. Outrossim, isso será feito com a finalidade de garantir mais dignidade e oportunidade aos indivíduos sujeitos à “uberitização”. Idem, é necessário que seja criado uma proposta de lei pela Câmara dos Deputados, que deverá ser entregue ao Senado com o objetivo de exigir condições mínimas de trabalho das empresas de aplicativo, sendo multada aquela que não seguir as normas estabelecidas a fim de garantir assistência aos trabalhadores. Dessa maneira, o Estado poderá contradizer a tese de Bauman demonstrando uma relação sólida com o seu povo.