A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 16/12/2020

O século XX foi palco de diversos confrontos no que se refere às relações de produção. Desde as relações antigas, como o fordismo, baseado nas linhas de produção fixas, até relações toyotistas, baseadas no ‘just in time" e no direcionamento da produção à sua efetivação no mercado consumidor. Contudo, a partir da década de 70, com o advento da era neoliberal, as relações de trabalho foram flexibilizadas, e modelos como o da “uberização” do trabalho na era tecnógica conquistaram espaço. As consequências desse modelo foram a precarização estrutural do trabalho e a perda da liberdade.

Em primeiro lugar, é importante entender o que é a precarização estrutural do trabalho. De acordo com o sociólogo Ricardo Antunes, o processo de “uberização” do trabalho remete para uma época anterior a conquista dos direitos trabalhistas, havendo hoje o que o autor chama de um “privilégio da servidão”. A perda de garantias trabalhistas, previdenciárias e flexibilização da jornada de trabalho, mais do que representar “liberdade”, representam uma espécie de nova servidão. E de fato, tal transformação na realidade trabalhista ocorre de forma estrutural e organizada no globo, e com a volatividade do capital maior do que nunca, a tendência dos centros urbanos é a de precarização de serviços e em centros industriais, da condição de trabalho; fator responsável por atrair os centros produtivos das grandes corporações para Ásia nas últimas décadas.

Além disso, entender o conceito de liberdade é um imperativo para continuação da análise. De acordo com o pensador Karl Marx, a liberdade começa onde o reino da necessidade deixa de existir. Assim o sendo, não podemos considerar que há verdadeira liberdade onde as necessidades básicas ainda não foram supridas. Como bem coloca o economista Richard Wolff, as condições materiais dos trabalhadores constrói um sistema no qual há uma grande variedade de cereais dos quais não se tem condição de comprar nenhum. Essa é a pseudo-liberdade de uma classe cada vez menos livre.

Logo, para combater o fenômeno e as consequências da precarização do trabalho no Brasil e garantir uma liberdade verdadeira, para além do reino da necessidade, é mister um projeto do poder público para lidar com a situação. A fim de combater a situação de precariedade das relações de trabalho, é necessário um reestabelecimento do Ministério do Trabalho por parte do Executivo, para formulação de projeto nacional de empregabilidade e cobrança do cumprimento de direitos já conquistados outrora. A participação do Ministério da Fazenda para trabalhar em uma meta fiscal que foque no social que permita um aumento no salário mínimo com o objetivo de proporcionar uma liberdade para além da necessidade também é crucial. Só assim podemos parar de pensar em um relação fordista ou de “uberização”, e pensarmos em uma forma justa e humana de nos relacionarmos.