A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 23/12/2020

Em sua obra “A hora da estrela ‘’, a célebre escritora Clarice Lisperctor disserta acerca das desigualdades e dos cidadãos invisíveis socialmente, ao passo que retrata, através da personagem Macabéa, parte da populaçaõ marcada pelas consequências desses impasses. Diante disso, a conjuntura dessa análise configura-se atualmente, haja vista que a ’’ uberização ’’ na era tecnológica é precária, uma vez que as condições no tipo de trabalho atendam aos ideais econômicos de grandes empresas, mas não aos humanitários, deixando, assim, os trabalhadores à margem . Essa realidade se deve, essencialmente, à mentalidade capitalista e à falha educacional.

Em primeiro plano, é notável que o ideal defendido pelo capitalismo estimula a persistência desse problema. Nesse contexto,de acordo com o filósofo italiano contemporâneo Norberto Bobbio, existem  poderes atuantes na sociedade, como o econômico,o qual é exercido por quem tem posse dos bens materiais.Sob esse viés,o pensamento de Bobbio é traduzido na objetificação do trabalhador no fenômeno da uberização,o qual, por ser terceirizado e fazer parte de um mercado com intensa demanda, passa a ser entendido apenas como ferramenta lucrativa do capitalismo,pelos detentores de capital, ao sua mão de obra ser explorada sem atuação de direitos constitucionais. Desse modo,as exigências mercantis, quando associadas ao serviço marginalizado,formentam essa problemática.

Ademais, também vale ressaltar que a educação oferecida apenas com aspécto técnico oferece maior propagação desse imbróglio. Nesse sentido, pode-se relacionar essa perspectiva ao que o sociólogo francês Émile Durkheim conceituou como ’’ generalidade ‘’, ao afirmar que ideias repetidas várias vezes por determinado grupo ou instituição são internalizadas e repetidas naturalizadamente. Dessa forma, um ensino que foca apenas na apreensão de conteúdos tecnicistas, e não reflexivos, os quais auxiliariam na percepção de lógicas opressoras,como a da uberização, forma indivíduos que internalizam o hábito de normalizar esse quadro de violação e que são,automaticamente,passivos a tais condições,as invizibilizando na sociedade. Com isso, essa lacuna educacional respalda esse impasse.

Portanto, constata-se a necessidade de intervenção do Estado, tendo em vista a precária condição que o fenômeno da uberização tem propiciado.A ele, cabe, não só intervir nas relações de trabalho presentes nesse fenômeno, através de seus meios de fiscalização e punição, determinando medidas que edifiquem a proteção aos direitos trabalhistas, para que a dignidade esteja acima da visão lucrativa, como também acarretar mudanças no cenário educacional, através da inclusão de formas reflexivas a respeito das relações sociais mais amplamente, anexando esses debates à grade de esino. Espera-se, assim, que as Macabéas da vida real sejam representadas institucionalmente, notadas e defendidas.