A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 21/12/2020
O documentário brasileiro “GIG- a uberização do trabalho” aborda o difícil cotidiano dos trabalhadores informais das empresas de aplicativos. Dentre alguns relatos, são realizados questionamentos em relação a debilidade dessas novas relações de trabalho, como direitos não assegurados, porcentagem de lucros baixa e a falsa premissa de liberdade no que tange a autonomia do emprego. Sob essa ótica, é necessária a análise dessa conjuntura, para compreender e mitigar os problemas da uberização do trabalho.
A princípio, as plataformas de aplicativo, como Rappi e Uber, se consideram apenas uma ponte entre o cliente e o trabalhador, por isso não se responsabilizam em garantir direitos como previdência e saude. Mas essa retórica é problemática, visto que os riscos na hora de entrega ou corrida são transferidos para o trabalhador e o mesmo deve arcar com suas despesas, ou seja, o empregado é exposto a situações de perigo e não recebe o mínimo de direitos humanos das empresas.
Ademais, a porcentagem de lucros é pequena. Segundo o documentário citado acima, os trabalhadores informais ganham somente 20% a 30% do lucro total. Além disso, há o custo do material de trabalho, então sobra uma quantia mínima. Portanto, é comum observar que motoristas de aplicativo, por exemplo, fazem jornadas de trabalho exaustivas para cumprir sua meta salarial. Dessa forma, é possível observar que não há tanta liberdade na flexibilidade da jornada de trabalho.
Somado a esses fatores, o atrativo para a população em busca de emprego, é a falsa autonomia vendida por essas empresas. O filósofo Michel Foucault retrata em seu livro “Vigiar e punir” como as grandes corporações criam mecanismos de vigilancia através do micro, de forma que os mesmos se vigiem. E tal fato ocorre nas plataformas de aplicativo, visto que as avaliações são uma forma de controlar e punir o trabalhador.
Sendo assim, mudanças devem ser feitas nesse cenário. O governo pode, através da criação de leis e fiscalizações, exigir que as empresas assegurem direitos para o trabalhador informal, como o de segurança por exemplo, e também de equipamentos adequados, para garantir que os mesmos sejam protegidos em seu ambiente de trabalho. O Estado também pode auxiliar, por meio de um monitoramento intenso dos municipios, na garantia de que os aplicativos estejam cumprindo o regulamento proposto, com o fito de promover uma rede de trabalho sem precariedade.