A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 22/03/2021

A situação de desemprego no Brasil, agravada pelo cenário atual da pandemia do novo coronavírus, possibilitou a ampla adesão de indivíduos às diversas formas de trabalho informal, especialmente àquelas oferecidas por aplicativos. Apesar desse caráter aparentemente salvívico dessas novas modalidades de emprego, infelizmente, elas também são acompanhadas por uma crescente desumanização das pessoas. Sob esse aspecto, convém analisar como a uberização do ofício, em um período marcado pela tecnologia, contribui para a precarização da situação do trabalhador no país.

Em primeiro lugar, é preciso apontar que essa modalidade de emprego informal por meio de aplicativos, embora aparente oferecer maior liberdade ao trabalhador, priva este de condições mínimas para a realização de seu serviço, como a preservação da saúde. De acordo com o portal de notícias G1, a mobilização nacional de entregadores de plataformas como iFood, realizada em 2020, tinha por reivindicação a disponibilização de equipamentos de proteção individual ( EPIs) pelas empresas aos empregados. Nesse sentido, faz-se possível perceber que essa uberização do trabalho pode acarretar sérios riscos aos indivíduos. É inaceitável, desse modo, que um país signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos negligencie a submissão de seus cidadãos a tais situações degradantes.

Além disso,  faz-se necessário notar também que essa uberização do trabalho se torna, nocivamente, uma maneira precária de amenizar a urgência de se exigir do Estado a promoção de empregos nesse cenário de escassez. Segundo o escritor irlandês Oscar Wilde, o primeiro e essencial passo para que haja o progresso de uma nação é a insatisfação. Dessa forma, essa modalidade de emprego por meio de aplicativos se apresenta como uma distração temporária e degradante para o verdadeiro problema do país, que é a baixa promoção de postos de serviços. Diante disso, deve-se evidenciar a realidade inadmissível de uma sociedade que é indiferente a um governo que não preza pela disponibilização de trabalhos dignos a seus cidadãos.

Pode-se apontar, portanto, que a uberização dos empregos, ao invés de possibilitar a liberdade do trabalhador, apenas precariza a forma de atuação deste, Tal cenário é evidenciado pelas condições degradantes a que o indivíduo se expõe nessas situações, nas quais até a saúde deste está ameaçada. Somado a isso, faz-se preciso notar também que essa modalidade, majoritariamente, é utilizada como uma distração para o real cenário de desemprego no país e a infeliz inércia do governo.