A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?
Enviada em 28/05/2021
Os primeiros direitos trabalhistas brasileiros foram estabelecidos no governo de Vargas, a partir da política do populismo, e passaram por mudanças até atualmente. Acerca disso, nota-se um regresso legislativo, uma vez que ocorre uma flexibilização e enfraquecimento das regras instituídas, com intuito de favorecerem os lucros de empresas. Como produto disso, há o aumento de empregos inseguros e terceirizados, entre os quais se destacam os envolvidos do processo de “uberização”. Nesse viés, a ilusão social de que cargos mais flexíveis e independentes contribuem para uma maior liberdade é contraposta aos empregos precarizados, já normalizados na sociedade e aproveitados somente pelos donos do capital.
Com a ascensão dos aplicativos de entrega, na pandemia, houve um aumento das contratações pouco burocráticas, as quais são o novo normal da sociedade atual e são até consideradas um recurso que trás a autonomia do trabalho. Todavia, a não concessão de direitos aos empregados da “uberização” possibilita a ocorrência de casos trágicos, como a morte de um “motoboy” da RAPPI e a exigência desta somente que os pedidos do funcionário fossem transferidos, no intuito de não desagradarem os clientes. Sobre isso, mesmo que já ocorram manifestações por mais direitos, elas não são efetivas e a insegurança é mantida e aceita. Ademais, a normalização dessa situação vai ao encontro da banalização do mal, proposta por Hannah Arendt, e torna o processo de mudança complicado, uma vez que a sociedade encontra-se alienada.
Outrossim, o crescimento da precarização dos trabalhos é reflexo da tendência atual mais liberal, favorável para os grandes empresários. Nessa ótica, a Quarta Revolução Industrial é marcada pelo uso das tecnologias, as quais colaboram para a diminuição do valor da mão-de-obra humana em serviços simples, e, aliada ao liberalismo, ocasiona a flexibilização radical dos direitos atuais. Visto isso, a procura incessante por aumentar lucros motiva a perda do vínculo entre o empregador e o empregado, tido como uma ferramenta temporária e substituível por uma máquina.
Destarte, a “uberização” trata-se somente de uma estratégia do capital para evitar a ligação com os trabalhadores e, consequentemente, os custos de seus direitos. Assim, os empregados devem persistir na exigência por direitos e, em conjunto com os cientes dessa situação, promover nas redes sociais e nas ruas uma maior mobilização social, explicitando que a Constituição Cidadã assegura empregos dignos a todos e evidenciando como é a realidade cansativa e insegura vista. Desse modo, talvez a banalização do mal seja desestruturada e as empresas, devido à pressão, concedam mudanças legislativas, colaborando para melhores condições de serviço, dignas e previstas na lei nacional.