A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 01/06/2021

Desde o período inicial de modernização da estrutura econômica e tecnológica no Brasil, a constante mudança nas relações trabalhistas é fortemente presente, uma vez que o avanço digital tem proporcionado modificações as quais beneficiam camadas específicas da sociedade. Nesse ínterim, atualmente, a “uberização” do trabalho, ao mesmo tempo que proporciona a praticidade para grupos de maior poder aquisitivo, retira, do trabalhador, os poucos direitos antes existentes, fato potencializado pela falta de empregos formais, aliada à pouca qualificação profissional de boa parte da população.

Em primeira análise, é indiscutível que a displicência governamental é uma das causas do problema em questão. Tal fato se opõe ao pensamento do filósofo Thomas Hobbes, segundo o qual a função primordial do Estado é garantir os direitos essenciais para cada cidadão, como a geração de empregos justos, os quais respeitem os limites do indivíduo e remunerem de forma coesa. Nesse sentido, a ausência de políticas públicas as quais promovam a diminuição dos índices de desemprego e de terciarização laboral é um fato gerador da elevação vertiginosa da popularização de aplicativos como o “Uber”, o qual vende a ideia de liberdade e flexibilização dos horários de trabalho, entretanto, apresenta uma situação precarizada e extenuante para os motoristas cadastrados, corroborando um novo modelo de exploração.

Outrossim, evidencia-se a má qualificação laboral de parcela dos brasileiros. Isso se relaciona ao conceito de Meio Técnico-Científico-Informacional, formulado pelo geógrafo Milton Santos como forma de descrever o cenário de amplo desenvolvimento tecnológico hodierno, o qual insere, com maior ímpeto, a automação industrial e, em consequência disso, o crescimento do desemprego estrutural. Nesse viés, a maior concorrência por uma vaga de emprego, verificada no país, exige um preenchimento melhor de espaços no currículo pessoal, situação a qual afasta os indivíduos menos capacitados de possíveis possibilidades empregatícias, os quais recorrem aos trabalhos que não reconhecem o valor pessoal.

Entende-se, portanto, a necessidade de mudanças substanciais no quadro em questão. A fim de atenuar a problemática, o Governo Federal deve instaurar investimentos direcionados à ampliação das ofertas de trabalho formal em nível nacional, por meio do aumento no contingente de vagas em setores públicos, as quais sejam preenchidas por candidatos aprovados em exames qualificatórios, para que aja uma maior eficiência nesses setores e uma consequente redução do desemprego. Além disso, a criação de cursos gratuitos de qualificação profissional é imprescindível para que as pessoas humildes possam disputar vagas de maneira justa no mercado de trabalho, o que enrijece a harmonia social,