A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 02/09/2021

No filme “Wall-e”, da Disney, o mundo transformou-se de modo a deixar os humanos extremamente alienados e sedentários, vivendo em poltronas, com computadores, de onde podiam tomar decisões a qualquer instante. A analogia da Pixar obteve sucesso ao interpretar um fenômeno cada vez mais em evidência: a uberização do trabalho e, por extensão, da vida na era tecnológica. Essa modalidade de empregabilidade representa, portanto, uma faca de dois gumes, pois conforme é cômoda para cliente, empregado e empregador, na mesma medida chama atenção para o preocupante “desmantelo”, o qual abre possibilidade para o cerceamento de direitos duramente conquistados por operários sindicalistas, culminando em um futuro incerto e um presente de constantes modificações.

Nessa conjuntura, a evolução da tecnologia sempre desperta sentimentos difusos, bem representados, hoje, pela presença de algoritmos, os quais promovem assertividade, mas coletam dados dos quais as pessoas ignoram estar concedendo. Por essa razão, o caráter da tecnologia reflete, como em Frankenstein, de Mary Shelley, os dilemas humanos,  e isso é um tema central da economia, da divisão do trabalho, o qual que está cada vez mais informal, facilitado e imprevisível. Apesar da notável faci-lidade que a “uberização” promove, no presente, para os envolvidos, no futuro, pode configurar arrependimento, dada a descentralização, uma vez que a “abolição” de leis trabalhistas configura menos garantias. A liberdade informal do trabalho pode acarretar problemas imprevistos por ser desregrada.

Outrossim, Alexis de Tocqueville defendeu a dualidade excludente entre liberdade e segurança: na medida em que uma aumenta, a outra decresce. A teoria, ademais, é válida para avaliar os caminhos da tecnologia no trabalho, pois, como em sistemas recentes, contêm falhas e são frágeis em seguranças pessoais, especialmente para o trabalhador. Ainda, o “liberalismo” que envolve tais práticas econômicas muitas vezes é utilizado de maneira a justificar a desigualdade e as explorações para com o operário informal. Logo, dada a incerteza dos tempos atuais, como teorizou Z. Bauman, a estratégia deve se dedicar a prevenir riscos, ao mesmo tempo que mantém certa liberdade econômica — é possível!

Sendo assim, compete ao governo, em parceria com o segundo setor, atualizar leis que assegurem as relações de trabalho e informar o trabalhador dessas garantias. Isso pode ser feito por meio da revisão de leis trabalhistas datadas, as quais devem manter o foco nas dinâmicas atuais, a exemplo da previdência privada e de empregos informais, bem como, por intermédio das redes sociais que aproximem os empregadores e os operários, enquanto concedem também informações sobre o mercado de trabalho e seus desafios. Com isso, será possível estabilizar essas novas trocas econômicas, garantindo o máximo de liberdade que o dilema da Tocqueville suporta.