A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 07/09/2021

O termo “uberização do trabalho” designa o surgimento de serviços digitais com menos intermediários entre a oferta e a procura, sendo gerenciados por grandes empresas que não têm nenhuma responsabilidade com os prestadores de serviço. Esse sistema soa atraente para ouvidos despreparados, que encaram como uma oportunidade libertadora de empreender autonomamente e com flexibilidade de horários. Porém, como não há regulamentação para assegurar a segurança do trabalhador, os empregados executam um trabalho insalubre. Assim, em uma sociedade marcada pelos avanços tecnológicos, faz-se necessário discutir sobre a precarização na uberização do trabalho.

Nesse contexto, vale destacar que é notável a popularização dos modelos trabalhistas totalmente diferentes do emprego formal, sendo preferidos pela versatilidade dos métodos de execução e tendo como instrumento essêncial a internet; além disso é consonante com as tendências flexíveis do estilo de vida moderno. Com efeito, Zygmunt Bauman, sobre as relações de trabalho na sociedade líquido-moderna, diz que, sendo o mundo fluido e inconstante, as pessoas não estão em busca de estabilidade, a ocupação está relacionada à lógica de consumo. Dessa forma, é compreensível a popularidade de serviços em plataformas digitais, que oferecem a oportunidade de realizar o expediente a qualquer momento e lugar, sem ter uma relação direta entre o empregado e o empregador.

Ademais, a falsa liberdade vendida às pessoas que ingressam nas engrenagens degradantes da uberização do trabalho se torna um pesadelo ao perceberem a conquista da independência objetivada como o aliciamento da precarização do trabalho, que, não possuindo regulamentação e normas técnicas, promove o excedimento da jornada de trabalho e o risco de acidentes. Segundo a socióloga Hannah Arendt, em sua teoria sobre banalização do mal, eventos ruins que acontecem frequentemente, como a diminuição de direitos e garantias dos trabalhadores, passam a ser normalizados. Desse modo, o trabalho informal característico dos serviços digitais na sociedade contemporânea é extremamente prejudicial aos empregados que se veem sem amparo da lei e das empresas dirigentes em uma situação de necessidade e a banalização desses acontecimentos potencializa esses malefícios.

Portanto, faz-se necessário que o Estado, juntamente com canais midiáticos, desenvolva propagandas e anúncio informativos - que serão veiculados na internet e televisão aberta, com verbas governamentais - sobre os males do serviço não regulamentado, visando comunicar à população a realidade insalubre das condições uberizadas de trabalho, a fim de que decidam lucidamente seu estilo de vida e possam se livrar das engrenagens desse sistema degradante. Somente assim a sociedade se verá livre da banalização da redução dos direitos trabalhistas consequentes da uberização dos serviços.