A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 13/09/2021

Na obra “Cibercultura”, o filósofo Pierre Lévy defende a ideia de que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) devem ser utilizadas como uma ferramenta de melhoria das condições sociais, o que o trabalho. Sob essa ótica, o hodierno contexto da “uberização” das relações trabalhistas na era digital vai de encontro com o pensamento de Lévy, visto que tal processo impulsiona a precarização do exercício laboral brasileiro. Isso ocorre, sobretudo, devido à negligência estatal e à disparidade econômica.

Mormente, é válido ressaltar que o descaso do Estado, no que tange regular as novas modalidades de emprego, intensifica a depreciação do trabalhador. Nessa perspectiva, o sociólogo Ruy Braga elaborou o conceito de “precariado”, o qual diz respeito aos indivíduos que vivem em condições de exploração econômica e de subemprego. Sob esse viés, a imobilidade do Poder Público fomenta o surgimento dos “precariados” descritos por Braga , uma vez que ao abdicar de sua responsabilidade de fiscalizar os oficios digitais no país, ele torna os proletários suscetíveis a um ambiente de exploração e de submissão às empresas privadas. Dessa forma, sem um apoio político o trabalhador se torna refém dos interesses de seus patrões e perde parte de seus direitos.

Outrossim, a atual realidade econômica brasileira submete os labutadores a empregos adversos e degradantes. Nessa perspectiva, de acordo com o Índice de Gini, medida que classifica o grau de desigualdade em um país, o Brasil está entre as 10 nações mais desiguais do mundo. Nesse tocante, essa situação de desproporcional distribuição de renda faz com que uma substancial parcela da população aceite trabalhos de baixa remuneração e de pouca estabilidade, como os motoristas de “Uber”, tendo em vista que essa é uma das únicas opções de garantir uma renda mínima. Dessa maneira, a manutenção dos desníveis financeiros se constitui com um impecilho para aprimoramento da relações trabalhistas.

Torna-se imprescindível, portanto, combater a “uberização” da atividade trabalhista nacional. Para isso, é papel dos sindicatos - órgãos responsáveis pela luta por melhores condições de trabalho - promover manifestações digitais, por meio da utilização de grandes redes sociais, como o Twitter, a fim de cobrar da máquina pública um posicionamento a favor da regulamentação das novas modalidades de emprego que envolvem as TIC. Ademais, os governos estaduais devem oferecer apoio financeiro para a população de baixa renda, com objetivo de garantir uma segurança econômica mínima. Assim, quiçá um dia, a nação desfrute plenamente das ideias de Pierre Lévy.