A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 21/10/2021

A evolução tecnológica ocorrida nas últimas décadas trouxe mudanças significativas nas relações sociais e consequentemente, também nas relações de trabalho. Tais mudanças promoveram flexibilização no trabalho e promessa de maior liberdade para o profissional. Entretanto, o que esse processo chamado de Uberização esconde é que na sua vigência, as relações de trabalho tornam-se fragilizadas, o que aumenta a concentração de renda e as desigualdades econômicas no país.

A crise econômica mundial das últimas décadas causou aumento da taxa de desemprego no país. O IBGE revela que só em 2020, o Brasil totalizava quase 14 milhões de desempregados. Esse contexto econômico aliado ao crescimento exponencial da tecnologia proporcionaram o atrativo crescimento de várias plataformas digitais, como é o caso da Uber. Com um modelo de trabalho inovador, essas empresas atraíram os desempregados com a proposta de ganho financeiro imediato e flexibilidade de tempo. Isso gerou esperança de melhoria de renda para muitas pessoas que estavam fora do mercado de trabalho. Entretanto, essa proposta de valor esconde um grande problema: a ausência de garantias e benefícios trabalhistas, como férias, INSS e 13º salário. A ausência desses direitos torna o cidadão refém do seu ofício, pois a grande maioria que se submete a esse estilo de trabalho tem a renda advinda dele como única e termina obrigada a trabalhar por jornadas superiores a 10 horas diárias para sobreviver. Esse contexto precariza as relações trabalhistas e corrobora para um estilo de vida prejudicial, gerando aumento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes.

Além do supracitado, há o fato de que o profissional liberal está sujeito à alta concorrência. Esta por sua vez, desqualifica o trabalho e promove a baixa remuneração pela alta demanda de autônomos, o que gera aumento na concentração de renda e nas desigualdades sociais. Além disso, os autônomos se submetem a condições de trabalho de risco, estando muitas vezes sujeitos à violência inerente ao ofício, como é o caso do motorista de aplicativo morto em Londrina em 2019 durante o seu exercício profissional.

A uberização é uma tendência mundial de inovação. Entretanto, ao aderir a ela, é preciso cautela pois ela legitima seu exercício sem garantias para o trabalhador. Como solução, é importante que se garantam possibilidades de ganho financeiro sem onerar a cidadania do trabalhador. Para isso, cabe ao Governo Federal garantir políticas públicas de reinserção no mercado de trabalho, promovendo e oferecendo cursos profissionalizantes e otimizando a educação básica em todos os seus níveis. Desse modo, o desemprego no país seria mitigado em todos os níveis intelectuais e o cidadão não dependeria apenas de trabalho precário para sobreviver.