A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 02/11/2021

Durante os últimos anos, o mundo corporativo passou por uma reforma gerencial a fim de substituir os modelos burocráticos descritos, ainda no século XIX, pelo sociólogo alemão Max Weber. Tais modelos não mais atendiam às demandas crescentes de produtividade e de competição. Nessa perspectiva, as estruturas organizacionais erigidas no terceiro milênio passaram a prezar por flexibilidade, agilidade e eficiência. Porém, essa atualização decorrente de um novo modelo competitivo ganha contornos problemáticos ao se confrontarem dois conceitos igualmente importantes: o modelo técnico-científico de progresso (que avança em alta velocidade) e a valorização do trabalho como atividade social (que pode se ver sufocada em meio às novidades gerenciais).

Desse modo, o filósofo judeu Yuval Harari, autor da obra “21 lições para o século XXI”, problematiza essa situação de forma a propor uma economia baseada na criatividade e na liberdade laboral. Inclusive, defende o autor, que o trabalhador será o responsável por si mesmo, não mais havendo uma hierarquia rígida. Dessa forma, o agente é ao mesmo tempo chefe, cliente e empregado de si próprio. Portanto, é possível compreender que, nesse modelo, a responsabilidade econômica recai sobre o indivíduo. Ou seja, a estrutura proposta pela “nova economia” pode gerar externalidades negativas, como a impossibilidade de um planejamento financeiro pessoal, ainda mais em um país de tantas oscilações político-sociais como o Brasil.

Entretanto, o sociólogo brasileiro Milton Santos expõe o trabalho como uma das condições para a cidadania plena. Corrobora essa ideia o fato de se ver o trabalhador como a peça chave para a sociedade dentro de uma economia de mercado. Portanto, ao se enxergar o emprego do ponto de vista social, a ânsia pela modernização poderá acarretar diversos desbalanços econômicos e sociais, como o aumento da pobreza e o do desemprego. Por outro lado, é importante ressaltar que as novas tecnologias e os novos modelos organizacionais costumam ser muito mais produtivos. Prova disso é o caso das videolocadoras, que, com o advento de plataformas virtuais de filmes e séries, viram-se obsoletas em questão de poucos anos.

Logo, cabe ao Estado, por meio do Ministério da Educação, executar um projeto que inclua disciplinas tecnológicas e de criatividade digital no currículo escolar. Essas disciplinas deverão conter programação e linguagens, além de recursos que possam, futuramente, incluir o Brasil no rol de países que criam tecnologias de massa. Desa forma, preparam-se os jovens para um futuro coerente com as demandas da sociedade moderna, além de garantir-lhes condições para que expressem sua cidadania.