A "uberização" do trabalho na era tecnológica: precarização ou liberdade?

Enviada em 12/10/2022

No Brasil, a era digital incorporou novos hábitos de consumo ao povo, a principal delas, é o fenômeno conhecido como uberização. O hábito, que traz comodidade para quem contrata, expõe o trabalhador aos riscos do trabalho sem proteção. Ademais o mito do empreendedorismo acaba atraindo o interesse de desempregados para o trabalho sem proteção. O que aparentemente significa liberdade para fazer o próprio horário e flexibilidade das atividades, representa trabalhar por um salário insuficiente para suprir as próprias necessidades.

Segundo o filósofo Florestan Fernandes, o trabalho no Brasil sempre teve base heterogênea, e sua distinção é a exploração. Com a mundialização do capital e os estabelecimentos de bases tecnológicas para exploração do trabalho humano, foi possível arregimentar uma massa de desempregados para o desempenho de atividades informais, sem nenhum tipo de proteção por parte da legislação trabalhista.

Outrossim é a questão salarial, contrapartida do trabalho. Recentemente um entregador do Ifood, conhecido por Paulo Galo deu uma entrevista ao jornal “A Folha”, falando acerca dos riscos pelos quais passam os entregadores do aplicativo. Ele inicia a apresentação com a incômoda pergunta: “Você sabe o quanto é difícil carregar comida nas costas de barriga vazia?”. Paulo relata as dificuldades do trabalho e as inúmeras vezes em que sai para trabalhar, mas por bloqueios do aplicativo não consegue levar o mínimo necessário para o pagamento das contas e despesas básicas, além dos desgastes na moto, ou pequenos acidentes que deixam o entregador sem poder trabalhar, e ainda com as despesas dos reparos necessários ao veículo que é o instrumento de trabalho. Galo ressalta que diversas vezes o lucro do trabalho realizado, que é muito menor que o lucro da plataforma, é consumido pelas despesas do entregador formando um salário “negativo”.

Há que se incentivar novas formas de trabalho e lançar mão das inovações tecnológicas, mas é preciso regulamentar toda forma de trabalho humano. É preciso garantir que nenhumtrabalhador seja alijado do direito à sobrevivência e para que a inovação tecnológica não represente uma forma de escravização da modernidade.