A valorização do esporte feminino no Brasil.
Enviada em 17/07/2020
“Sou um evadido! Quando nasci, fecharam-me em mim”. Em seu poema “Evadido”, Fernando Pessoa, memorável poeta português modernista, ilustra a dolorosa fuga de paradoxos já moldados pela sociedade. Destarte, a possibilidade do êxodo das raízes encarceradoras traria consigo a eudaimonia. Analogamente, a sociedade hodierna, como na diégese, é acorrentada por oximoros, arraigados também no ambiente esportivo. Sob esse prisma, infelizmente, a valorização feminina neste cenário é um problema segregador, salientado pelo patriarcalismo estrutural, que ocasiona a desigualdade de gênero.
A priori, vale ressaltar que a desvalorização do esporte feminino no Brasil é um óbice reproduzido pela cultura do patriarcado. Segundo a escritora Linda Nicholson, em seu livro “Indentity before identitiy politcs”, devido ao preconício da moral do determinismo biológico, as estruturas sociais machistas foram intensificadas, agindo excludentemente, sobretudo, com mulheres. À luz disso, as privações no esporte foram acentuadas, tornando o ambiente majoritariamente masculino. Dessa maneira, a participação feminina se torna nitidamente desigual, representando 40% a menos que a de homens, consoante ao Programa nas Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Haja vista, a efetivação do esporte como direito universal ao esporte, sancionado pela Declaração dos Direitos Humanos, ainda é utópica.
Outrossim, a desigualdade de gênero é agente causal na desvalorização do esporte feminino. Com a retomada dos Jogos Olímpicos, no período da Modernidade, o idealizador Piérre de Fredy definiu que as atividades físicas só poderiam ser realizadas por homens. A posteriori, na era militar do Brasil, a Constituição refreava determinados esportes para mulheres, perpetuando o ideal atroz de supremacia masculina. Isto posto, em um ótica estrutural, consolidou o que Simone de Beauvoir denominou como cárcere de liberdade feminina, estando preponderante até após relativa melhora na inserção de mulheres no exercício desse direito. Logo, como em “Evadido”, fugir-se de si, em um cenário de construções sociais, ainda representa um desafio para a integração de atletas na equidade esportiva.
Em suma, torna-se imprescindível que a perfídica seja cerceada. Para tanto, o Ministério da Cidadania deve criar um programa chamado “Eu atleta” destinando-lhe a mulheres, que consiste em um projeto de integração feminina aos esportes mais comuns em Olimpíadas. Assim, com finalidade de romper as barreiras excludentes, a proposta, para ter um alcance considerável, deve promover matrículas através de um aplicativo que será desenvolvido pelo próprio concelho governamental. Nesse sentido, as academias seriam públicas, incentivando o acesso às atividades físicas, bem como sua valorização, abundantemente. Somente assim o impasse da desvalorização do esporte feminino no Brasil será resolucionado e fugir das estruturas sociais, como almejado por Pessoa, uma realidade.