A valorização do esporte feminino no Brasil.

Enviada em 21/07/2020

Margaret Atwood, nas páginas de “O Conto da Aia”, desvelou a opressão exercida por um Estado fictício sobre as mulheres, cujo papel era inferiorizado e resumido à função reprodutiva. Contempo-raneamente, a limitação do estilo de vida feminino retratada se faz presente em alguns aspectos da realidade brasileira, como na insuficiente, ainda que progressiva, representatividade do gênero no âmbito esportivo. Com efeito, a parca valorização do esporte feminino no Brasil mostra-se como subproduto de questões históricas e governamentais.

Em primeira análise, deve-se ressaltar que a depreciação das mulheres no esporte remete à própria construção da sociedade brasileira ao longo dos séculos. Isso porque a cultura portuguesa impôs um modelo patriarcal ao Brasil,o qual,no decorrer da história,caracterizou a mulher como frágil demais para a prática esportiva profissional - associada à virilidade masculina - o que contribuiu para a desigualdade de gêneros nesse ambiente até a era atual. Nesse sentido,o cenário de perpetuação de comportamentos machistas é arquitetado pelo conceito de “Habitus”,de Pierre Bourdieu, o qual afirma que as estruturas sociais são incorporadas e interiorizadas pelos indivíduos em suas ideias ou ações. Diante disso,a diferenciação entre papéis masculinos e femininos no desporte materializam as reflexões do filósofo e apontam para a urgência da reversão do panorama nacional de inferiorização feminina.

Em segundo plano, tal quadro é alicerçado na ineficiência estatal em promover a valorização do esporte feminino. A gênese desse fato encontra-se no cultural fisiologismo das agendas do Estado, o qual secundariza pautas não úteis ou prioritárias aos seus interesses subjetivos,como reeleições, o que negligencia os investimentos no reconhecimento esportivo das mulheres. Essa conjuntura reaviva, com marcante atualidade, aquilo que Nicolau Maquiavel, na obra “O Príncipe”,refletiu acerca da necessidade de o governante conduzir seus esforços sempre no sentido de perpetuar e ampliar sua esfera de poder. Dessa forma, as engrenagens políticas correlacionam-se intrinsecamente ao pensamento do autor do século XVI, e ,assim, promovem o descaso com as reivindicações femininas no meio desportivo.

Portanto,torna-se evidente que o desprestígio da mulher no esporte instaura-se por fatores histórico-sociais e estatais. Por conseguinte,  o Poder Executivo Federal deve investir substancialmente em políticas públicas de engrandecimento do esporte feminino,por meio da criação de um órgão público exclusivo para a proteção e garantia do desenvolvimento das mulheres no ambiente esportivo,com a justa fiscalização da proporção entre os salários femininos e masculinos,a fim de romper a desigualdade entre gêneros nesse âmbito. Somente a partir disso e da desconstrução da opressão contra a mulher nas escolas brasileiras,o país se distanciará do quadro desolador descrito por Atwood.