A valorização do esporte feminino no Brasil.

Enviada em 29/07/2020

A produção cinematográfica “Ela é o cara” retrata a história de Viola, uma jovem apaixonada por futebol que, após ter o time feminino cancelado por falta de recursos, decide assumir uma identidade masculina para conquistar uma vaga no time masculino e poder praticar o esporte que ama. De maneira análoga ao retratado na narrativa ficcional, a desvalorização da prática esportiva feminina – seja pela ausência de investimentos estatais, seja pela existência de uma forte cultura patriarcal – é uma realidade latente na sociedade brasileira. Dessa forma, convém o emprego de um olhar crítico de enfrentamento acerca do impasse.

A princípio, verifica-se que a postura inerte da União perante a situação se configura como uma das principais causas do impasse. Consoante a Constituição Federal, é dever do Estado – através do Sistema Nacional de Esporte (SNE) -, alocar e organizar recursos para o incentivo a prática esportiva no Brasil, garantindo que todos os cidadãos, independentemente de gênero, possuam pleno acesso ao desporto. Todavia, ao analisar a conjuntura nacional hodierna, nota-se que esse ideal é constatado na teoria e não, desejavelmente, na prática, haja vista que, mesmo com a existência do SNE, houve uma redução de aproximadamente 49% da verba federal destinada ao esporte para o ano de 2020, de acordo dados orçamentários presentes no Portal da Transparência do Governo Federal.

De outra parte, a existência de uma exacerbada cultura patriarcal e machista na sociedade tupiniquim contribui para que o esporte feminino seja negligenciado no território nacional. A esse respeito, ao realizar uma análise diacrônica e sincrônica acerca do tema, nota-se que, desde os primórdios de sua formação, o tecido social nacional foi condicionado de forma a enxergar a função social da mulher como sendo apenas de cuidadora do lar e dos filhos. Nesse contexto, qualquer ação feminina que fuja desse estereótipo de gênero não é bem vista no país e, por isso, uma grande parcela da sociedade ignora a inserção da mulher na prática esportiva, negando-lhe um direito constitucional. Assim, como resultante para esse olhar de ignorância acerca do esporte feminino, tem-se que apenas 1% do orçamento dos principais clubes desportivos nacionais é destinado para as modalidades femininas, conforme levantamento realizado pelo grupo jornalístico O Globo.

É evidente, portanto, a necessidade na mitigação do revés. Destarte, cabe ao Ministério da Educação, reformular o ensino da educação física no país, promovendo práticas que integrem ambos os sexos e conscientizem, desde cedo, que o esporte não possui gênero. Ao Legislativo, cabe a criação de uma lei que estipule um orçamento mínimo que deverá ser investido pela União nos programas e centros de incentivo as esporte em todo o país, garantindo, assim, a existência das modalidades femininas.