A valorização do esporte feminino no Brasil.
Enviada em 20/10/2020
O direito ao sufrágio feminino, que no Brasil foi alcançado no ano de 1932 e incorporado à Constituição Federal no ano de 1934, constituiu um grande avanço das mulheres dentro do campo político, espaço que desde a Grécia Antiga era restrito ao gênero masculino. Ao longo do tempo, as mulheres foram à luta para alcançar maior espaço dentro da sociedade e obtiveram diversas conquistas, entretanto, ainda há campos onde o percentual de participação feminina é inexistente ou pequeno, como o campo esportivo. A participação das mulheres no esporte vem ganhando destaque nas últimas décadas, contudo o crescimento do percentual ainda caminha em passos lentos, uma vez que os investimentos e o incentivo ainda não alcançaram o patamar adequado. Tal problemática se deve muito pelos preconceitos enraizados há séculos na sociedade, sustentados pelo suposto impacto do esporte na feminilidade e pelo machismo, que submete e inferioriza a imagem da mulher. Segundo a historiadora Helen Lenskyj, a prática esportiva não compatibiliza com a subordinação feminina tradicional do sistema patriarcal, uma vez que o esporte oferecia a possibilidade de tornar igualitária a relação entre os gêneros. No ano de 1941, durante a Era Vargas, foi promulgada uma lei que proibia a participação de mulheres. Sete décadas após essa decisão, a lei continua a refletir na sociedade brasileira, mesmo já tendo sido vetada, implicando um baixo incentivo e a falta de patrocínio. A lei criada por Getúlio Vargas e o estudo da historiadora se baseiam em um mesmo princípio, o pensamento de que os esportes poderiam alterar a natureza dos estereotipados corpos femininos e que o clima de rivalidade dos jogos desestruturasse a soberania do sexo masculino. De acordo com o filósofo Norberto Bobbio, todo preconceito é fruto de um pensamento errôneo, que é aceito passivamente, sem antes passar pelo crivo da razão. Dentro de um contexto filosófico e social, o “machismo” pode ser compreendido como um senso de orgulho masculino, uma expressão exacerbada da masculinidade, que infere na inferiorização do gênero feminino, constituindo uma espécie de preconceito. Nesse contexto, a visão de que a prática esportiva não condiz com o gênero feminino reforça o temor de desestruturar o “regime machista”, no qual a sociedade está inserida, ao abrir espaço para as mulheres. O estigma da inferioridade feminina acaba por conduzir a diversos outros problemas, como o assédio sexual e a violência doméstica, constituindo uma barreira que precisa ser ultrapassada pela sociedade. Para isso, seria necessário que o Ministério da Cidadania investisse mais em aprimoramento para as federações esportivas femininas, por meio de projetos socioculturais e treinamentos, a fim de estimular os talentos que estão surgindo e incentivar os que já foram descobertos.