A valorização do esporte feminino no Brasil.
Enviada em 10/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de cegueira que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à não valorização do esporte feminino. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir essa desvalorização. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições públicas perante a falha no processo de assistência, posto que falta investimento financeiro para estimular a implantação de modalidades femininas nos clubes esportivos, o que compromete a visibilidade das mulheres no esporte, bem como a permanência dessas no universo esportivo. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado a não valorização do esporte feminino. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de fiscalização das leis, visto que não se tem inspecionado a efetivação do ordenamento jurídico em vigor que prevê a adoção de uma equipe feminina pelos clubes que participam do Campeonato Brasileiro, prejudicando a desconstrução da masculinização do futebol nacional. Constata-se, dessa forma, que a naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que a desvalorização do esporte feminino deve ser combatida. Para isso, é necessário que o Poder Executivo promova um maior direcionamento de verbas ao Ministério da Cidadania, o que pode ser feito por meio da concessão de patrocínios estatais a clubes com modalidades femininas esportivas, a fim de assegurar a permanência das atletas e expandir o alcance desses esportes a população. Ainda, é fundamental que organizações não governamentais, mediante atuação de veículos mediáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado a segura fiscalização da legislação em vigor, visando à garantia da implementação de equipes femininas aos jogos oficiais e o desmonte da visão machista presente no futebol nacional. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.