A valorização do esporte feminino no Brasil.

Enviada em 30/09/2021

No filme “Ela é o cara”, é retratada a história de uma adolescente apaixonada por futebol, e que depois do time feminino ser banido da escola, resolve se fantasiar de menino para poder jogar. Nesse sentido, ela adota a identidade de seu irmão e ingressa na equipe. Fora da ficção, é fato que a situação apresentada no filme pode ser relacionada ao hodierno cenário brasileiro que, em razão do preconceito e da falta de incentivo estatal e midiático, torna a valorização do esporte feminino - ainda - um grande desafio. Logo, são necessárias ações sociais e estatais para reverter a atual conjuntura brasileira.

A priori, é imperioso salientar que a desigualdade de gênero -no campo esportivo- é reflexo da propagação e aceitação de padrões, preconceituosos e esteriotipados, criados pela consciência coletiva. De acordo com a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, a rotulação de pessoas através de certa característica ou condição biológica é responsável pela criação de histórias únicas que não representam a realidade. Logo, percebe-se que a atual concepção do corpo social brasileiro tipifica o pensamento da escritora, haja vista que há a associação de determinados comportamentos como femininos e, por conta disso, restritos à atividades, como o esporte. Dessa forma, faz-se necessária uma mudança de postura da nação verde-amarela a fim de combater padrões sociais preconceituosos.

Ademais, é conveniente destacar que o escasso estímulo financeiro e midiático fornecido às atletas favorece a negligência dofeminino. Contrariamente a essa lógica, o artigo 217 da Constituição Federal -norma de maior hierarquia do sistema jurídico brasileiro- afirma que é dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, todavia percebe-se que tal direito constitucional nao é efetivado na prática. A título de ilustração, apenas no ano de 2019, a Rede Globo, renomada emissora televisiva, transmitiu pela primeira vez a Copa do Mundo feminina de futebol, além disso, muitos dos principais campeonatos esportivos femininos não são transmitidos à população. Destarte, o direito constitucional torna-se uma exceção e dificulta a inclusão das mulheres no esporte.

Portanto, a fim de evitar a rotulação da mulher e combater estigmas preconceituosos no desporto, urge que as escolas, instituições formadoras de opinião, invistam, por intermédio da realização do diálogo para o desenvolvimento de uma consciência crítica, no esclarecimento da importância do esporte na valorização e inclusão da mulher na sociedade. Acresça-se ainda que o Ministério do Esporte, em cooperação com as empresas midiáticas, deve investir, por meio de verbas, na propagação intensa das diversas áreas esportivas ocupadas por mulheres e na  divulgação igualitária de campeonatos femininos e masculinos. Somente assim, poder-se-á valorizar o esporte feminino no Brasil e contribuir para que o drama narrado em “Ela é o cara” seja, em breve, apenas ficção.