A valorização do esporte feminino no Brasil.
Enviada em 20/10/2021
A série “O Gambito da Rainha”, da plataforma digital Netflix, põe em pauta a desigualdade de gênero presente na sociedade ao retratar a história de Beth Harmon, uma adolescente órfã que, por meio do xadrez, enfrenta as limitações impostas às mulheres no mundo do esporte. Fora da ficção, paralelamente ao longa-metragem abordado, observa-se que, na conjuntura do Brasil, a parcela feminina da população ainda enfrenta, no que tange à inclusão esportiva, alarmantes obstáculos. Nesse sentido, tanto os danosos hábitos civis, quanto a falta de incentivo social corroboram a problemática.
Em primeira análise, cabe destacar o impacto da manutenção, por parte da comunidade canarinha, de uma ótica limitada na persistência do imbróglio. Conforme a célebre teoria do “Habitus”, do sociólogo Pierre Bourdieu, o corpo coletivo contemporâneo possui padrões que são impostos, naturalizados e posteriormente reproduzidos. Nessa senda, essa máxima reverbera na nação tupiniquim na medida em que a histórica perspectiva sexista em relação à prática esportiva feminina, respaldada no mito do sexo frágil, conserva o caráter cultural da ideia de superioridade masculina. Com isso, nota-se que o preconceito, fundamentado na bolha do machismo, retarda, de forma significativa, o processo de inserção igualitária da mulher no contexto desportivo e confirma a tese de bourdiana.
Ademais, é imperativo pontuar o precário estímulo civil como um dos fatores que validam o estorvo. A partir disso, o livro “Ensaio Sobre Cegueira”, do literato português José Saramago, define eclipse de consciência como a imobilidade do povo em relação aos entraves enfrentados pelos cidadãos. Desse modo, essa face materializa-se no panorama verde-amarelo, dado que a falta de apoio, em especial financeiro, às mulheres, não raro, obstrui a valorização das atividades realizadas por esse grupo. Sob esse viés, a apatia comunitária, refletida nos dados elaborados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, que mostra como a prática de exercícios físicos por mulheres no Brasil é ainda 40% inferior à dos homens, dificulta a evidência do esporte feminino no país.
Verifica-se, portanto, a necessidade de ações capazes de reverter esse preocupante quadro pátrio. Para tanto, cabe às instituições escolares, em conjunto com as famílias, nortearem, mediante palestras e rodas de conversa, a formação humana dos jovens brasileiros, no intuito de desconstruir as perigosas amarras do preconceito de gênero no Brasil. Outrossim, urge que o Governo Federal, em parceira com as corporações empresariais, desenvolva, por intermédio do capital público-privado, projetos voltados para a estruturação de equipes femininas, a fim de fomentar a organização competitiva desse núcleo e, assim, estimular a visibilidade desses eventos no cenário nacional. Destarte, tornar-se-ia possível impulsionar o empoderamento da mulher retratado em “O Gambito da Rainha”.