A Violência Contra a Mulher

Enviada em 23/02/2021

Na obra Ensaio sobre a Cegueira, o célebre escritor José Saramago ilustrou um cenário de pandemia para criticar a apatia de diversos indivíduos. Em paralelo, hodiernamente, no Brasil, o impasse de saúde pública causado pelo coronavírus incita, em decorrência do isolamento social, a intensificação da violência doméstica e dos casos de feminicídio, fato chancelado em face da indiligência governamental e da indiferença de parcela da população.

Convém pontuar, em primazia, os fatores para a culpabilidade do Estado no imbróglio em questão, sob a óptica do filósofo idealista Friedrich Hegel, o qual aponta o mencionado agente como detentor do poder correferido à atenuação das anomalias sociais. Contudo, o Governo permanece, majoritariamente, ineficaz, no tangente à mitigação dos casos de violência doméstica no período em que a doença covid-19 enquadra-se como pandêmica, haja vista a carência de suporte estatal para facilitar a realização de denúncias pelas vítimas, pois, devido ao isolamento social, há uma tendência de aumento do convívio com o agressor e uma consequente dificuldade no acesso às delegacias.

Outrossim, não menos importante, cabe salientar os motivos do impasse ser potencializado pela coletividade. Em análise sob tal viés, é inescusável evocar o pensamento do eminente sociólogo Zygmunt Bauman, o qual evidencia a superficialidade e a efemeridade das relações sociais contemporâneas. À luz do referido axioma, diversos membros da sociedade contribuem, embora indiretamente, para o aumento da violência contra mulheres na Nação em tempos de covid-19, na medida em que não se manifestam, frequentemente, diante de comportamentos abusivos, a exemplo da negligência de vizinhos ao absterem-se da responsabilidade de denúncia em casos explícitos de agressão. Por conseguinte, a omissão de parcela populacional aumenta a vulnerabilidade das vítimas e, destacadamente, incita a confiança do agressor na impunidade de seus atos.

Diante dos aspectos supramencionados, urge, portanto, que o Poder Público proporcione apoio às vítimas de violência doméstica, por intermédio de instrumentos alternativos de denúncia, como endereços eletrônicos ou canais telefônicos de acesso fácil e seguro, além de investimentos em organizações de acolhimento de mulheres em estado de vulnerabilidade social, com o escopo de minorar os entraves para o delato de agressões. Concomitantemente, é essencial que a Escola aliada à Família e à mídia fomentem o sentimento de empatia na população brasileira, mediante debates e campanhas acerca da relevância de cada agente social para evitar práticas de feminicídio, com o intuito de reduzir a passividade de cidadãos em relação a situações abusivas. Assim, caso essas medidas sejam implementadas, poder-se-á amenizar, o panorama apático retratado por Saramago.