A violência obstetrícia em debate no Brasil
Enviada em 19/09/2019
Na obra “Disciplina do amor” Lygia Fagundes, escritora contemporânea, relata que o impasse não é nascer no Brasil, todavia é não ter voz e nem vez. Fora da literatura, é fato que a realidade obstétrica - seja pela mediocridade de profissionais, seja pela pouca informação social - encontra-se em um patamar desumano e, similarmente ao supracitado, “sem vez” . Nesse perspectiva, faz-se necessário discutir acerca da violência obstétrica no século XXI.
Nesse contexto, é válido analisar os impactos causados pela apatia dos profissionais da saúde. O filósofo Satre salienta que qualquer manifestação de violência configura-se como uma derrota. Sob essa máxima, nota-se que a negligência de auxílio obstétrico, além de frases prontas ditas por profissionais - a exemplo: “na hora de fazer gostou, agora vai ter que aguentar” - no momento do parto, não somente evidencia a constante violação dos direitos das mulheres, mas também acumula constantes atitudes desumanas. Destarte, gera-se a descrença no sistema de saúde pública, haja vista que a assistência oferecida estabelece uma incongruência com os princípios morais à vida e causa a instabilidade psicológica à parturiente. Ademais, a percepção das usuárias desse atendimento sobre atitudes médicas como: a violência verbal e a exposição desnecessária do seu corpo, limita-se à concepção de “um preço a pagar” pela gestação.
Outrossim, é imprescindível entender os fatores impulsionados pelo déficit informacional da sociedade acerca da violência obstétrica. O cientista Robert Putnam, em sua teoria “Capital Social”, afirma que quantos menos a sociedade participa, maiores são os problemas. Diante dessa óptica, é indubitável que, em consequência da inexistência de políticas públicas as quais forneçam o conhecimento cívico da ocorrência desse empecilho, postula-se a sua escassez nos debates sociais. E, por conseguinte, o corpo cívico além de não admitir a denúncia de posições desumanas ocorridas no parto , também não cobra a efetivação dos cuidados adequados nesse momento. Logo, tudo isso não só impulsiona a banalidade dessa agressão, como também sustenta o panorama da sua prática.
Portanto, é mister combater o paradigma causado tanto por atos de profissionais, quanto pela pouca informação social e - assim - desvincular a realidade obstétrica brasileira do relatado por Lygia em “A disciplina do amor”. Para tanto, cabe - por meio de investimentos - ao Ministério de Saúde, em virtude da sua responsabilidade pela saúde pública, promover palestras ministradas por mestres e doutores em relações interpessoais direcionadas aos profissionais da saúde, a fim de que esses abandonem qualquer ação de violência levada à parturiente. Além disso, esse ministério deve criar campanhas com a finalidade de informar a população sobre a sua importância na luta contra esse impasse.