A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 24/10/2019

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima eternamente. Todos os dias, o personagem atingia o topo do rochedo, não obstante, era vencido pela exaustão. Analogamente, esse mito associa-se à luta cotidiana das brasileiras que buscam ultrapassar as barreiras que as separam do direito a um parto e atendimento humanizados. Nesse contexto, não há dúvidas de que proteger a integridade da mãe e do recém-nascido esbarra não só no precário sistema de saúde brasileiro, mais ainda na insensibilidade social. Com efeito, torna-se fundamental debater os impactos e consequências desse quadro, bem como maneira de o interromper.

Em primeira análise, cabe pontuar que a educação superior na área de saúde é subfinanciada no Brasil, tendo em vista a carência de hospitais universitários, assim como a falta de professores qualificados. Nesse cenário negligente, a formação íntegra dos estudantes é comprometida, o que resulta em um mercado incapazes de suprir as demandas sociais. Comprova-se tal fator a partir dos dados fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo os quais, o parto cesariano prevalece em detrimento do normal, uma vez que o procedimento exige menor esforço médico, contudo, é potencialmente danoso ao corpo feminino, seja por risco de infecção, seja por choque por choque anafilático, por exemplo.

Ademais, é válido ressaltar que o mundo pós-moderno já não incentiva o sentimento altruísta em sociedade. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a responsabilidade em relação ao outro, como comportamento moral, surge da condição de proximidade. Todavia, a maneira como as gestantes são tratadas pelo corpo social e de saúde, inviabiliza a construção desse sentimento. Prova disso, é que, consoante levantamento da Revista Veja, cerca de 25% das mulheres afirmam já terem sofrido violências durante trabalho de parto tais como: cirurgia sem anestesia, banhos rios e falta de alimentação. Por conseguinte, verifica-se não só o desrespeito à integridade física e mental, mas ainda ao princípio da dignidade humana.

Considerando-se os aspectos mencionados, compete ao Ministério da Educação disponibilizar à população um aplicativo útil tanto para mostrar a receita e os gastos envolvendo a educação superior quanto para denunciar instituições que não proporcionam ensino e infraestrutura coerente com seus gastos. Paralelamente, concerne à mídia, em parceria com sociólogos e ONGS, promover debates e palestras públicas divulgadas em redes sociais e canais televisivos abertos, para que disseminem valores que prezem pelos direitos humanos e pela empatia. Só assim, a realidade distanciar-se-á do mito grego e os sísifos brasileiros vencerão o desafio de Zeus.