A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 11/09/2020

O romance “O Morro dos Ventos Uivantes”, da inglesa Emily Bronte, retrata a trágica história de amor entre os jovens Heathcliff e Catherine. A garota morre precocemente, aos 26 anos, devido a complicações no parto de seu primogênito. Na hodiernidade, embora inúmeros avanços na medicina tenham ocorrido, gestantes ainda sofrem no período puerpério, devido à violência obstetrícia recorrente no Brasil. Faz-se necessário, portanto, debater os aspectos sociais da questão, a fim de atenuá-la.

Diante desse cenário, é importante ressaltar os motivos que influenciam a conduta equivocada de médicos e enfermeiros, como o cansaço, por exemplo. Muitas vezes, jornadas de trabalho árduas podem levar profissionais a agredir, física ou verbalmente, mulheres em estado mais vulnerável, como uma reação em cadeia devido à própria exaustão. Segundo a Fiocruz, 1 em cada 4 brasileiras sofreram violência obstetrícia, fato que comprova a relação entre cargas horárias e maus tratos em pacientes, visto que a jornada de trabalho de médicos é a maior entre todas as profissões. Tal dado revela como são elevadas as chances de médicos já cansados acompanharem gestantes em trabalho de parto, resultando em um tratamento hostil e agravando o problema.

Por conseguinte, ainda convém lembrar como a ausência de debates acerca do tema provoca o silêncio das vítimas, as quais não denunciam a violência sofrida por medo. A impunidade dos agressores, assim como o desmerecimento dos relatos, leva milhares de mulheres em todo o país a optar por não revelar a violação. De acordo com as ideias do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento acerca do mundo. Assim, a falta de discussões cria “muros”, acarretando o desconhecimento de gestantes sobre seus direitos, o que as leva a aceitar comportamentos abusivos, acentuando a problemática.

É perceptível, dessa forma, que a violência obstetrícia ainda é um entrave na contemporaneidade e, por isso, é imprescindível que a Organização Mundial de Saúde busque reduzir o cansaço dos profissionais da área por meio de uma maior organização de horários e rotação de médicos durante plantões, a fim de evitar que trabalhadores exaustos atendam gestantes, minimizando a possibilidade de tratamentos hostis. Ademais, é necessário que a mídia, como formadora de opinião, vise conscientizar a população por meio da implantação do tema em novelas e propagandas, com o intuito de expor os direitos de gestantes, evitando o silêncio destas. Dessa maneira, será possível atenuar a questão, a fim de que o drama sofrido por Catherine possa permanecer apenas na ficção.