A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 16/10/2020

A série de filmes “O renascimento do parto” aborda diversos desafios enfrentados pelas mulheres brasileiras durante o período de gravidez e o procedimento do parto. Dentre os impasses analisados pela série documentária, destaca-se o aumento da prática de violência obstétrica em hospitais brasileiros. Essa problemática, embora passível de resultar em graves complicações para a mãe e para o filho, é amplamente negligenciada no Brasil, devido, principalmente, à permanência de determinados problemas de caráter social e cultural na sociedade brasileira contemporânea.

Em primeiro plano, é necessário pontuar que a violência obstétrica, tal como outros tipos de violência direcionada à figura da mulher, tem como principal fonte o machismo enraizado na cultura brasileira. É válido ressaltar o exemplo da luta feminina pelo direito ao voto que, apesar de iniciado antes da Proclamação da República, teve seu objetivo concretizado apenas durante o Governo Vargas. Nessa perspectiva, torna-se evidente a dificuldade brasileira de reconhecimento dos direitos das mulheres em comparação ao reconhecimento dos direitos concedidos a um homem. A permanência dessa característica de desigualdade no Brasil culmina em uma normalização problemática da subjugação da figura feminina ao domínio masculino, o que favorece a permanência das agressões contra a mulher, incluso aquelas cometidas antes, durante e após o parto.

Em segundo plano, pode-se relacionar a prática da violência obstétrica à questão da desumanização da medicina no Brasil. Este fenômeno decorre da valorização que a sociedade brasileira atual concede à formação acadêmica na área de medicina, sem ressaltar suficientemente o impacto que o trabalho de um profissional dessa área tem sobre as pessoas que buscam auxílio médico. A popularização do curso de medicina pelo prestígio social resulta na formação de profissionais que visam ao cumprimento objetivo de seu trabalho e ao retorno financeiro, em detrimento do verdadeiro cuidado com o bem-estar dos pacientes. No segundo filme da série “O renascimento do parto”, essa relação é corroborada, visto que a maioria dos depoimentos fornecidos por vítimas da violência obstétrica continham reclamações sobre o comportamento dos profissionais envolvidos no procedimento do parto.

Diante do exposto, é notória a urgência do combate a essas problemáticas para evitar a continuidade da violência em questão. Dessa forma, faz-se essencial que o Ministério da Saúde, aliado a órgãos de saúde municipais, promova discussões públicas e campanhas acerca das causas e consequências da violência obstétrica, com foco nas questões supramencionadas. A divulgação desses projetos deve ocorrer por intermédio dos meios comunicacionais mais abrangentes, como as redes sociais. Somente assim, será possível garantir à mulher brasileira o acesso a um parto verdadeiramente bem sucedido.