A violência obstetrícia em debate no Brasil
Enviada em 27/10/2020
De acordo com o sociólogo Zygmund Bauman no mundo líquido moderno a solidez das coisas, assim como a solidez das relações humanas vem sendo interpretadas como ameaça. Concomitantemente a isso, é perceptível que o pensamento do sociólogo reflete a realidade do país com a violência obstetrícia e seus efeitos na sociedade, o que corrobora um agravante social. Ao analisar as razões para a ocorrência de tamanha adversidade vê-se a inobservância governamental quanto a efetivação de leis punitivas e o cinismo das equipes médicas nos acompanhamentos com a mulher durante o parto. Desse modo, é necessário evidenciar as causas e de propor soluções para à atual conjuntura.
É indubitável pontuar, inicialmente que a negligência governamental mediante a implantação de leis punitivas para a violência obstétrica contribui para a impunidade da classe médica. Nessa perspectiva, tal fato comprova-se através de dados publicados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, em 2017, apenas 3 mulheres das 520 denúncias de violência obstetrícia registradas em Rio Preto foram devidamente punidas. Dessa forma, com muitos profissionais despreparados no mercado de trabalho, quem saí mais prejudicada são as mulheres, principalmente as situações de carência, pois a maior parte dos profissionais mais qualificados dessa área migram para o setor privado, pelo fato de que a obstetrícia é a especialidade médica com a menor remuneração no setor público.
Outrossim, é imprescindível ressaltar a contemporaneidade é marcado pelo cinismo e a falta de empatia, decorrente do individualismo. Sob esse prisma, de acordo com o sociólogo Zygmund Bauman, a lógica hipercapitalista subverteu o sentimento empático, o que causou, por consequência, menos afeto nas relações sociais. Tal fato, exemplifica-se na forma como as pacientes são tratadas em hospitais públicos, muitas vezes submetidas a cirurgias sem anestesias, banho frio e falta de alimentação. A maior parte das mulheres fica exposta a uma situação de humilhação e dessa maneira, o direito a integridade física e mental, assegurado constitucionalmente, é violado.
Portanto, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço de tal problemática na sociedade brasileira. Para tal, o Poder Público por meio do Poder Legislativo criar delegacias especializadas para obter denúncias de vítimas nos casos de violência obstétrica, com o fito de combater a impunidade à classe médica. Além disso, é necessário a conscientização da sociedade brasileira e as gestantes sobre tal cenário. Essa medida torna-se viável por meio do Ministério da Educação através de palestras nas escolas, anúncio publicitário nos hospitais que enfatizem tal problemática e incitem a realizar denúncias contra a equipe médica, com o intuito de garantir a dignidade das mulheres gestantes protegida. Assim, pode-se ter uma sociedade contrária ao mundo líquido proposto por Bauman.