A violência obstetrícia em debate no Brasil

Enviada em 19/11/2020

“Meu corpo, minhas regras” é um dos principais ideais defendidos pelo movimento feminista do Brasil, em que é reivindicado o direito das mulheres de possuírem liberdade para tomar decisões acerca de seu próprio corpo. Porém, ao analisar a situação das gestantes do país, percebe-se que o lema propagado não é realidade, tendo em vista as violências e abusos clínicos sofridos por tal grupo. Nesse contexto, a desinformação em relação ao tema traz como consequência a violação da autonomia das mulheres.

A princípio, cabe destacar a falta de debate em sociedade sobre a problemática. Segundo o sociólogo Noam Chomsky, a mídia possui o papel de moldar a opinião pública de acordo com o poder corporativo dominante, desconsiderando, assim, seu papel de informar a população. Sob essa perspectiva, a discussão acerca de direitos como: possuir um acompanhante, posição e escolha do tipo de parto é silenciada, haja vista que não é lucrativa para os hospitais, que tendem a optar por realizar os procedimentos mais caros. Dessa maneira, as gestantes são conduzidas a se submeterem a tais procedimentos sem que haja um conhecimento prévio a respeito.

Como consequência, a autonomia das mulheres é violada. De acordo com uma pesquisa liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 59% das mulheres entrevistadas sofreram cortes cirúrgicos (como episiotomias) sem o seu consentimento. Nessa perspectiva, observa-se que a decisão dos médicos prevalece sobre o corpo e saúde da própria gestante e de seu bebê, sem que haja diálogo e concessão. Ademais, para Hipócrates, a relação entre médico e paciente deve haver confiança, cuidado e amizade. Contudo, nota-se, por meio dos dados, que os princípios do pai da medicina estão sendo contrariados. Portanto, enquanto os interesses clínicos sobressaírem à decisão das donas do corpo em questão, a situação se agravará.

Desse modo, é evidente que a problemática da violência obstétrica no Brasil possui raízes que vão desde o âmbito cultural até o clínico. Sendo assim, para mudar a atual conjuntura, é necessário que o Ministério da Saúde fomente o debate acerca do tema, por meio da divulgação dos direitos das gestantes em grandes veículos midiáticos. Ademais, ele também deve propagar cartilhas informativas a respeito dos diferentes procedimentos que podem ser realizados para que a experiência possa ser melhor. Assim, a fim de propagar o conhecimento às mulheres, espera-se que elas de fato definam as regras de seu corpo.